Ola!

"A felicidade não passa de um sonho, e a dor é real... Há oitenta anos que o sinto. Quanto a isso, não posso fazer outra coisa senão me resignar, e dizer que as moscas nasceram para serem comidas pelas aranhas e os homens para serem devorados pelo pesar."(Schopenhauer)

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Anjo caído



Quem levou teu coração,
Doce criança?
Sem mais lhe poupou infância,
E arrimou-te em fardos imensos,
Me desanimou,

Te pertencerá o futuro de Ninfa,
Ou ainda de Narciso,
Indumentária do perplexo,

Sem voz o cantor calou,
Sem os pés, as pernas descansaram,
E o peito sem sentimento para ser lido,
Desencantou,

Doce pensar a se pintar n’aura de anjos,
Meu despertar é lhe antever,
Sem lágrimas, sem lastimas,
Minhas mãos a te socorrer,

Minhas orações cautelosas,
Lembrarão que te lembro,
Mas o tempo a ti constatou,
Que o homem às vezes ora,

Às vezes ora sem sentimento;
Abraça sem amor,
Pensa sem racionalizar,
E pede sem precisar,

Não, meu bem, se assim te digo,
Não és homem quem não vê,
Como assim te vejo,
Sozinha, sem amparo,
A ver a vida como um gargalo,
A se comprometer,

Tristeza dos anjos daqui,
Não te conhecer,
Parecem incautos,
Feitos de barro a se refazer.

(Cléber Seagal)



Às vezes



Uma voz soa rareando,
No deserto sem fronteira,
Falta o canto, esperando,
Das vidas minhas; trincheira,

A sua voz escuto longe,
Insípido que sou de um monge,
Quase nunca fui assim,
Eu, sempre mudo de sim,
Conduzo-me dalém de si,

Ah isolamento, este me ri,
Neste areal, todos os pensamentos,
Sentado na areia, já ausculto,
Todas as crenças em sentimentos,

Reproduzindo ainda culto,
De que semeio no vento,
Do que nunca fui, nem vivi,
Um pleno tempo de isolamento,

Perdi-me nos outros, aos poucos,
Sem materializar livre gozo,
Minha voz de atributo de roucos,
No silencio a se suplantar em insosso,

Ás vezes uma voz de dama,
Senta ao ouvido e me chama,
Uma reprimenda sela o choro,
De um amor, quem sabe improbo,

Uma figura criada dela,
Uma ideia formada nela,
E a alma não se abstém,
Chora fácil o que não convém.

(Cléber Seagal)

quinta-feira, 31 de julho de 2014

O sujeito negado

Tenho os sonhos do mundo, 
E um desgosto tremendo, 
Mais profundo do inculto, 
Que desfaz meus desejos,

As ideologias me batem a porta, 

Como as faces mortas no cotidiano,
Mas são passagens a lugar nenhum,
Iguais a escrita dum velho Sartre;

Barulho de passos que desacordam
Corroboram duvidas humanas,
Me vejo a insanas horas de demiurgico,
Deus do submundo,
A contar de horas...

Vivo a circundar leituras,
A discursar tessituras táteis,
Entretanto não é o material obra,
Não é o essencial palavras,
Que se Busca levantar totens,

Meu  mundo é metafísico,
A altura do que o humano destoa,
A alma a quem quer parece,
E o mundano in dúbio soa,
Sufocado a absurdo patafísico,

Sem destino unânime cárcere,
É o insistir dos descaminhos,
Homem de centro conjectura,
Humano sem alma de mártir, 
E lograr êxito sem destinos,

Todos temos para si, usura,
Do que lhe é visto alheio,
Há tantos mundos como falsidades,
E aos outros tarefa do meio;
A sujeição é idem as verdades.


(Cléber Seagal)

Belém



Quem consolará Raquel?
Deste gemido choro,
Deste quebramento insano,
Réprobo,

Quem aliviará seu cansaço,
De afago que um infante lhe nutriu,
Não há mais Ramá,
Mas há lágrimas em poço,
Sua voz de mãe se gastará,

Não, não se viu noites de escuro,
Enquanto estrelas explodiam,
E os muros desencantam,
Choram mães em surdo,

Porque há distancias entre Deus,
E os homens que despraticam ao léu,
Inconstâncias para voz que grita no deserto,
E a verdade divina humanizada é rara,
Morte a céu aberto,

Deus não está aqui, nunca esteve,
Nem na lança ou espadão,
Em armas que disparam,
Porque não na mão leve?

A matriarca não entende,
Nem Raquel deveria,
Pior o homem sobre o homem,
Sobrevive e desentende.

(Cléber Seagal)

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Construtor desforme

A criança e toda a fragilidade,
A alma e toda subjetividade,
Minhas mão doem na escrita,
Como meu coração,
Levado do chão,

Subelevado meu pensamento,
Austero espaço de barra-vento,
Mas não, de tempos em tempos,
Choro um dizer dos que clamam,

Por assim dizer,
Me mandam, satisfazer,
Reler-me com poucos,
Da mesma forma desforme,
Um coxo relutado de ideias,
Fui-me inerte noutros,

Fazer-me, ser-me,
Todo ilusão,
Tudo leitura de prostração,
Conduzo-me infante, para ser,
Sem saber que construo,
E destruo meu crescer.

(Cléber Seagal)

segunda-feira, 30 de junho de 2014

O Escrivinhador na Janela(incompleto)



Em colossal prédio de tão comum arquétipo citadino, ao qual cobre com demasia as arvores das ruas mais urbanizadas da capital, reside um senhor de meia idade, serio e prolixo no pensar, desorganizado no deitar e cheio de magoas anárquicas. Não há surpresa no deleite do quarto, no descanso enganado do apartamento, em que cada passo no subir de escadas é mais um passo esperado, sem visitas, sem horas programáveis, há um vácuo entre o que esperar, ou do que mesmo não saber do amanhã. Seria próprio do mesmo compassar, dos barulhos de carros, do casal que discute repetidas vezes sobre o que faltou do que mais falta, repensar sobre a hora do café matinal, o almoço, um jantar típico e tentar dormir... Alvoroço das corujas e acordar no canto dos pardais, cotidianamente, ainda sob as mesmas luzes de ideias em regurgitar que já lhe soa demente.
Assim, mais descomplicadamente na manhã acende um cigarro e entorna o café com pão integral, os dedos coçam fusos, a mente ora sim e não, convulsa, tenta martelar mais ideias, pega uma caneta tinteiro, presente do avô quando concluía a faculdade. É mais um carrego de lembranças, como a tinta que depois de um tempo se esvai... Uma, duas horas e os rabiscos sedimentados no papel produzem um cenáculo de cores desbotadas, algumas paginas são rasgadas diligentemente como na vida separou-as de um certo fim. Os escritos somem-se em sua busca alucinada pelo contar, passa a linha sobre nada e deixa reticências, se no quarto não vê concilio entre sua mente e o que deve transcrever, mais anda inoculado pelos cômodos, a recapitular os conflitos do que poderia ser, que não se acha sem saber discorrer.
Um dia todo que lhe rendeu uma pagina a ser dicotomizada, e ele deita sorrateiro num colchão gasto, seu único espaço de descanso, de uma mente árida e sufocante, não se sabe se por angustia do nada, dormiu de lampejo, sonhou um mundo de coisas que suas ideias não disponibilizavam. Faceiro imagina que já teve infância, álem do travesseiro manchado, há um segundo que desbota em espera.
Um senhor lá em baixo, andarilho por si, corta a noite como quem livra o fardo do dia. É despreocupado o pisar, sem sons a noite segue, coruja de igreja, um cão faceiro...queria que meu pensar seguisse esse curso de igual molde, compassado. Esses seres noturnos, agora mudos parecem espreitar, como eu espreito todo o mundo. Não é que me deito sem analisar, mas vejo mais gente no pouco que a sombra ajeita, parece descuidar dos homens que entrecruzam-se no dia, entretanto quanto menos pessoas mais olhares. E eu precisava de estar ali, de sentir a rua mais humana sem aglomerados de gente, e mais taciturnamente mundana. Os olhos veem de cada vez, como o meu coração a celebrar pela janela o que eu irrelevava".
De cada vez, uma senhora já idosa, no prédio vizinho anda de um lado para o outro na espreita, vi ali armada, uma gaiola dependurada como um nada, sem bichos nem leitos, e eu me ajeito sobre o parapeito como estudioso dos trejeitos, a senhora pega um telefone que insiste tanto digitar, parece não completar o dialogo da ligação. Ela se presta a sentar, a amargar um choro engolido, tem gritos que não se precisa ouvir, é só notar a decepção, as vezes quando a resposta não vem como queremos, nos iludimos. E aquela mulher passou horas naquele regimento de desespero, daqui a pouco nem eu dormia até cochilar já de manhã.
um senhor sentava-se a mesa, e (...)"Rasteiro, escorregadio e embebido esse homem... dessa forma a cerveja era sobre ele um cais, o balcão extenso como a contagem de horas nuas que o conduzia a prostração, sim as lâmpadas não são estrelas, sem mais imagens de própria correção, passionato! porque somos como quem se embriaga vendo a noite, e mundo são obras de interdição".

(Cléber Seagal)





quarta-feira, 4 de junho de 2014

Entre tu e o mundo


Todo dia é sempre de horas,
Mas não para mim.
É onde aqui, a angustia mora,
Não sei se é por si,
Ou por via cautelosa que persisto,

E há horas que não sou sim,
Nem não,
Nem alegrias,
Porque insisto em cultivar o amor que desbota,
E fora de mim não é mais que custódia sem afins.

Tento para suplantar vidas sem discórdias,
Entre tanto, me demora viver sem ser,
É momento das coisas sub-construir,
Minhas memórias;
Minha vista pára nos confins...

Os extremos que me sonegam,
Horas...
Eu vejo a mesa de escrita tão plena,
Sem enfeites,
Sem belezas,
Me chora deleites,
E teu corpo nu feito toalha,

Minha cama visionaria,
Condescendente de amores vãos,
Troco olhares sobre o chão,
E vago, não sei só conceder,
Se este quarto que me vive,
É em vida, meu próprio vão,

Sobreviver ainda me agride,
Mais pelo constar,
Do que mesmo imagino,
Sobrelevar amores, são carências,
Que me afogam neste dia de chuva,

Sem lumes,
Minhas luzes artificializam minha fuga,
Meu desdém, em três velas postas aqui;
Na mesa,
E criado mudo,
Na cabeça sem horizonte,
Sujo minha opinião,

Idéia emprestada de enganos,
Sem que eu artificialize tudo,
Saída dos dias,
Luz que não se apaga,
Escapação quase rara,
De chamariz de máquina,

Todo dia é sempre de horas,
Mas não para mim,
Sobretudo no que desnudo,
A humanidade me jaz estancada,
Em tecido cru,
Descrevo uma,
Dito duas horas caladas,
Entre tu e o mundo,
Como a palavra borrada.

(Cléber Seagal)