Ola!

"A felicidade não passa de um sonho, e a dor é real... Há oitenta anos que o sinto. Quanto a isso, não posso fazer outra coisa senão me resignar, e dizer que as moscas nasceram para serem comidas pelas aranhas e os homens para serem devorados pelo pesar."(Schopenhauer)

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Barcarola do Esquecimento




Este barco, Esta nau funda, navegável,
Este chão de espezinhar intragável,
Em olhar rarefeito para trás,

A vida me olha, e me traz,
Tantas saudades tuas,
E a dúvida derradeira que jaz,
Em ondas que vem e que vai,
Encostar n’agua, pernas suas,

Uma corrente me puxa e sai,
Todas magoas tuas...
E descubro o mar que é o não,
Não te ter e assim ser são,

Uma ave redescobre o céu,
E em cinza nuvens ao léu,
Espaçamento no vácuo que olho,
Eu busco teu olhar e me molho,

Não na pureza do mar,
Mas nas lágrimas que me assolam,
Aves que a enseada cantam,
Se deixaram levar,

Teu lembrar, arrevoada  de pássaros,
Que deixam terra e fogem vista,
E eu em pleno gozo assisto raros,
Tua imagem linda e forte me revista,

E a barcarola do esquecimento desce,
Toda a infinitude verde-azul,
Parece que meu amor só cresce,
E tinge a pintura em tom cru,
O amor não apaga e não aceita recuo.

(Cléber Segall)





    

sexta-feira, 1 de abril de 2016

A Ribeira e o Mar



A ribeira que sobre o mar desce,
Molhando todas as passagens,
Em fins de termino as margens,
Vai devagarinho e só cresce,


Sem sentir e já sendo todo vasto,
Que beleza se faz como pasto,
Que em verde se desfaz em lago,
Parece invadir-me o que trago, 


Toda lembrança já sentida,
De uma alma certa vez ainda,
De dor que foi-se e não mais,
Se compraz; abraço hoje e vais, 


A memorar meus esses desejos,
E toda alma de umbrais desterros,
Dos que não sonham nosso mais,
Nem provam tanto amor nos Ais,


Se para tanto, ninguém será,
Meu amor no teu amor e dirá;
Seremos santos a derramar,
Abraços, beijos de imaginar,


Somos todo o tempo de espaço,
Que nem as margens podem conter,
Corredeiras naturais a se manter,
Que para sempre seremos laço,


Os duvidosos serão verbo crasso,
Que de nada poderão fazer lasso,
Porque o mar, Tu estarás lá para ser,
E da ribeira, Eu, crescerei para ti ter.


(Cléber Seagal)

terça-feira, 12 de maio de 2015

Em certas noites

Essas noites, onde o povo de casa dorme, mas nas horas em que o sono não cerra com facilidade, e me escorrego pesado até o fundo do prédio; duplex de um andar, que admito sentar para tecer o tempo, só enquanto Hipnos  não chega a me solevar, sinto cortes de vento que me rodeiam ainda à janela, mesmo pelo pouco tocar.
A vistosa sombra que cobre as calçadas recobre as vistas de intentos, a procurar... vidas, seres estes como a mim não dormem, e ipso facto procuro companhia nas coisas como para me agradar. Isentos de tudo, são ruas tristes estas que jazem na noite mediana, e não resisto abrir a porta, que por me levar já vejo horas...
E eu piso o chão numa noite que estranha me percebe, sussurros de solidão, que vejo a metros a se conter, talvez, numa modorra modesta que se interdita, nem sim, nem não, mas exatamente uma cadela que se precipita a me reparar, quase que por si só nesta madrugada eu admito não estar surpreso.
Outras noites a vi se esgueirando noutras casas, outras tantas horas quase inóspitas moradias, de lhe empurrarem ou solaparem para longe, quase nunca a ouvia latir nesses escuros. Que de certo embriagam a quem quer se redimir, de um dia confuso, cansativo e obtuso que a todos soa transparecer.
A cadelinha ainda jovem viu o supor das ruas, ledo abandono. Tantas gentes, poucas almas caridosas. Muito movimentar, mas ainda seres de pedra. E a forma como esta canina me olha leva a crer que quem dera a vida ser mais suave, plena de melhor ser. O ver dela talvez me assimile nos demais, por sermos iguais, bípedes que pensam demais e sofrem idem.
Somos os únicos seres que sofrem consigo. Nunca que eu suporia ver algum animal sofrer de existencialismo. Por isso só a persigo no olhar, como ela já me olhou, tentando compreender o todo, que  é quase nada. Mais uma vez, a vida tem de tudo do qual nunca encontramos. E este animal, por mais limitado no pensar pareça, me serviu para lhe tomar de um minuto que seja.
Ela anda sem sono como a mim, que a sigo por ver. Vai farejar a todos os cantos do mundo, o que melhor lhe convier em tantos; submissão por comida, ou mesmo o catar guarita nos santos que estão à praça. Ao meu ver, espaços onde o frio é mais intenso. E eu em lenço a persigo sentindo o frio intenso desta madrugada. Talvez eu não tivesse o que fazer, mas ao meu ver é nesta noite primeira que lhes noto assim, tão amiúde, ao tempo que também parece grande esta noite.
As corujas tem asas para a noite, buscam igrejas, prédios abertos ao léu, liberdade noturna essa de escolher esgueirar-se, mas a cadela só escolhe frios; na calçada, na murada ou na praça ao céu... É crido que já sonha... Mesmo em meio ao ermo da praça. Fecha os olhos sonolentos que invejo tanto, já não liga por minha persiga, a preocupação de seu sentir frio é superior, e eu tremo de frio também, já imaginando por ela. Vendo que por si só me é desnecessário nesta noite me  proteger fora com esta coberta, olho pra trás, minha casa a espreita e eu em roupa de dormir... Me inquieta estar-me longe da normose do sono nas horas.
Sofro pelo alheio como se fosse sempre o derradeiro sintoma do medo, que não perpassa alem do frio das portas, além do vicio que me ronda de ter meios para as horas. Deixo o lençol enrolado a cadelinha, é bem mais provável sentir falta da hospitalidade daquilo que não temos. Da companhia assaz de momentos, de montes de vastidão e escuros que adianta imensidão. Ela, muito provavelmente acordará sem frio, sem instrumentos de medos que o mundo assim o é.
E eu fui menos eu nessas horas, recolho-me ao que parece ser sono, ao peso dos passos até chegar a minha própria porta, sem mistérios de vacilação, só olho a praça numa constatação de que me noto sob égide mórbida, de quem procura uma constatação pra minha humanidade quase morta de outras horas... A manhã chegará em breve, e serei mais um como aquela que dorme no relento, sozinho a passear.


(Cléber Seagal)

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Desmundo de Amor



Longe, entre continentes contingentes,
Quase que por engano,
Onde nos imaginamos,
Desperto deste desmundo,
Que hora nos mentem tanto,

O olhar, como de quem cuida,
O olhar no outro sob horas...
Minutos sem fala, Nem historias...
O mundo é pequeno criança,
De se desfazer,

O ler, de escrevinhador,
O ler neles observar da face,
Ver que há eternidade,
Mesmo sem tocar,
Ainda de se bem querer;

O corpo é marca encenada,
Reviravolta engendrada de cada,
Amante de cama e de vida,
Todo dia é alma de entrega severina,

Eu hoje, tu jás futuro,
Meu receio imaturo,
Visto que na vida as vezes há pranto,
Que se não cuido, me nudo,
Do que quero concretizado,

Há de ser, ipso facto,
dia após dia alvorecer,
Nos encontramos sem olhares,
Nos abraçaremos sem ares de desejarem ser,
Seremos só nós debruçados,

Longe, de um pensamento,
Um e outro sentimento mesmo,
Dentre nós que cremos,
O amor afaga e instaura,
Hoje me embriaga de transparecer.

(Cléber Seagal)

sexta-feira, 27 de março de 2015

O que é uma rosa?



O que é uma rosa de amores murchada,
Que se compadece e desvela desnudada?
O que é uma rosa de vermelho escarlate,
Que mancha esta mão,
Tão acolhida e lhe toma,
E se enobrece por não ter pretendido machucá-la.

Entre as flores talvez a mais magoada,
Que se entristece,
E ainda se ao cair das mãos fenece,
Quando foi-lhes mal dada.

O que é uma rosa,
Se o rubror vivo aos olhares,
Por si só de sangue e amor se envaidece,
Se assim for,
Na constância da vida tão fugida se apercebe de dor.

Calejada, envergonhada de desamor,
no coração de outrem uma vez desaguada.
O que é uma rosa tão finita,
Se colhida ao inverno não podes,
O que da primavera sempre se espera por sortes...

O brilho vivaz que outra não tem,
A beleza eterna que outra não compraz,
No efêmero das eras,
As rosas também são tristezas e espera.

(Cléber Seagal)