Ola!

"A felicidade não passa de um sonho, e a dor é real... Há oitenta anos que o sinto. Quanto a isso, não posso fazer outra coisa senão me resignar, e dizer que as moscas nasceram para serem comidas pelas aranhas e os homens para serem devorados pelo pesar."(Schopenhauer)

terça-feira, 13 de março de 2012

Taciturno

Olha para a noite,
Olhaste e te viste perdida na nebulosa,
Que acaricia as nuvens e o céu de prosa,
Olha para a noite,
Em senda fumê,
Que tardia para o dia,
Obscura mimosa de o ser,

Assente aos seus e olhe os meus,
Que em voraz sentimento corrompe desejos,
Seria uma deusa nos céus?
Assente aos seus e olhe os meus,
Riso de detalhes,
Formam o crime de não tê-la,
Assente aos seus e olhe os meus,
Que de tanto a procurar-te,
Na imensidão da noite fazem-me todo teu,

Choroso cantam os grilos,
Os pássaros em gemidos de negra vagalidade,
Talhe troça que varia a ineptidão da soturna,
Abre um leque de piedade,
Choroso cantam os grilos,
Em acasalamento colocam a arrepios longínquos,
A castigarem breves soluços furtos,
Transformam minha solidão numa vulgaridade,

Estrelas límpidas cintilam,
Olhai meus ritos,
Inibidos de causa conclamada,
De Parsifal abafada,
Estrelas límpidas cintilam,
Ignoram meu ver,
Antecedem luzes e em cruze montam,
Cozem sonhos até o alvorecer.

 (Cléber Seagal)

sexta-feira, 2 de março de 2012

À Minha Julieta; Versos Intimos


Cocei meus olhos, e na minha quieta manhã inquietei-me, o calor que o sol tomou me fez mais uma vez te imaginar, nessas horas de constante pratica e dedução, não me abstive de te pensar. Já cantei um fado rasgado, e te imaginei, soando a deslizes de: se viverei.

E ainda testando minhas certezas, meus planos, salvo quando te vejo como anjo, são luzes de olhares que se vão, e o tempo não para, para me permitir mais uma noite sã, mais um engano do relógio. Um mimo de quem não pode contar com a eternidade lúdica de um beijo.

Quando como se bastasse o vento, e este inebrio solene que me provoca e mostra onde apenas ele te toca, e desloca deslumbrante cheiros, ainda advém de ti, orgulhosa ventania que o és, desenha as nuvem em cachos plágios de teus cabelos a sorver.

Mundo perigoso este, não nos compreendem as pessoas, escapa-me te buscar nos meus pensamentos e por vezes que estamos distantes, inorgânico é ceder as fotos, tua forma de materializar, e meus gritos assimilam ao choro solicito de meu palpitar.

Nasce gente, cresce o mundo, e meu mundo é único, não preciso de muito; pertenço-te, e nessa alcova fria de vazia com lenços, de desejos e alegoria eu mereço teu seio, teu afago, ínfimo, possessão de notívago assumo-me irado e contigo já penso da solidão do nem sempre.

A miragem descoberta no ser, amar de perto, atento de acertos minha vida contigo atrai, move-me diretamente ao que realmente sou. Descobri não apenas de desejos formam-se alegrias e flores, pois de uma coisa se fazem as princesas: de castelos e sonhos.

(Cléber Seagal)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O Principio das Horas

É rumado o ponteiro de opaco relógio, o silencio dos quartos na casa amontoam mais horas, coberta fria que tenta requentar esta mórbida obra, este terço de século acabado serás ainda coisa morta.

E lá fora o inacabado gelo dos viventes estende-se a uma fossa, de defeitos e sentenças, assolam a mim, que procura tanta razão nos seres, tanto crer e demente me sinto causticado, tolas horas minhas de reflexão dormente.

O passo diminuto de olhares ao chão, eu admiro os guarda-chuvas abertos em contraste das almas fechadas, improprio é todo o tormento, dos que passam e olham fingidores do bem; não os comovem as dores, das saudosas felicidades uma vez provadas.

Minhas unhas que crescidas machucam-me a apertar este zelo de lençol cor de carne, atolam-me numa rede, e sinto ainda um descompromisso contente com meus hábitos, solidez aflorando-me longe e de mim mais um dia ausente.

As aranhas a fiar nas paredes casas tocadeiras, os grilos lá de fora chamam parceiras, a luz ilumina a escuridão do meu lado, e as goteiras procuram resguardo no meu quarto, crendo-me noutro lugar de passado memorável, onde as preocupações não me metiam em bugalhos.

No relógio de segundos e minutos mais falhos de minha vida, inospito mal olhado, eu admiro o compasso finito das vindas, de todas as vidas que nos passa a arremessados, rápido num piscar, numa alcova diminuta minha, consome todos os meus pecados.

(Cléber Seagal)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Primavera Vermelha

As ruas estão em polvorosas, se estendem de andarilhos que se queixam, e alariam do pouco, o que é demais a quem sempre tem mais. O compasso do dia tende a vibrar, são gritos que provocam, chama a quem entende a causa, tocam a qualquer que conheça a ação.

Não há mais espaço nestas vias, neste alarde que conduz a diuturna aclamação, assume o pedido, a prosa nossa de tentar, resguarda os que dormem e os que amanhecem para trabalhar, é a força da coragem insone, é a prova de heroísmo que rompe a marginais.

A cidadela irrompe de vermelho nas praças, das casas de família, para o tempo, para a palavra de ignorância, tomando agora das vestes as mentes, e das mentes os corações já rubros de tanto sofrer, tanto lacrimar; lembram sangue já vistos noutros, abraços de socorro e sem ar.

Este pedido não tem trégua, não suporta mais o negar, o denegar omisso de poderes que de opróbio sufocam o trabalho de quem mais dele se eleva, consagra-se na luta diária. Comprova-se a faina nas dores familiares de sujeição cotidiana, e de nem sempre dos amados abraçar.

Das incertezas estes sujeitos vivem, são mártires homônimos constantes, a criança que lhe pediu ajuda o sabe, já foi cidadão que carece de defesa, sabe-o também a gravida que dele se valeu e a socorreu. A mão que tirou dos escombros e o corpo que de escudo também usava.

E as folhas caem em tempos, mas não cai a vontade desses homens que enfrentam a madrugada, que afrontam sonhos, e as rosas se confundem com suas cores, e com seus sentimentos, seus sacrifícios não compreendidos por quem nunca observou uma farda.
 
(Cléber Seagal)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Lembranças

No canto da sala o isolamento do tempo ; angustia do momento, o sopro que uiva-se no vento, nas colinas além da janela tentam pensamentos, e no sofá se assentam minhas ideias ainda que tu não me queiras.

Todo o estigma de minha dor rarefaz, sento a cabeça no acolchoado, meu declinar dorme com minha mente, sopro do espaço iminente traz saudade nunca sentida, mas também todas contigo lidas. 

Já não sou mais tão forte, nem tão meu, e tremulo de frio adentro do meu peito; angustia certa, do que serei e do que verei, assume na vista e meu vislumbrar no teu embaça, dor somente se constata. 

Algum tempo, sozinho eu me lembro e no meu quarto lamento que tudo se foi, nem fotos pintadas a mão nem teu cheiro basta, lençol e marcas, mesmo a canção me declaram que nada é eterno, pra sempre nunca mais, e isso me dói.

E a verdade que nada me valha, se essa carta que remeto sobre você, talvez me mantenha aonde eu não posso ir, se eu chegar tão perto que seja de teu coração e mais perto do teu bem querer, ainda vou estar aqui. 

E digo mesmo me contestando, que estas provas de bem querer e que amo, fazem-me ouvir, que chegue além do papel, e do teu pensar que esteja, e o que mais eu houver de tratar, porque guardo sempre o melhor de mim para te sorrir.

(Cléber Seagal)

Infância

   Uma vez divagando sobre infância, depois de ver algumas outras crianças a brincar pelo terreiro me reti a esta idade, e lembrei, mais do que de necessidade de ser. Na verdade eu queria tanto ser pai, creio que a paternidade assente as benignidades que completam a existência, pois embora o homem não seja eterno finda-se numa semente do que plantou em vida, do que propriamente escreveu ou falou, mesmo que esta prole seja comparada ao nascimento de um novo ser. Copiosamente me fiz essa pergunta algumas vezes, sem saber que a resposta já a tinha comigo, de certo hesitei muito do que não conheci, e ainda fui áspero, incontrolável e fútil mui vezes, prova de minha complacência com a idade, digamos, esta explosão hormonal que a muitos afronta de certa juventude, me sentia dono do mundo e o mundo era só um brinquedo antes admirado de meu quintal. A gente acredita e menospreza decisões tão fáceis como se fossem comuns, na verdade as circunstancias nunca são as mesmas, e claro paga-se pelo mal feito. Noto que minha infância até amadureceu minha adolescência e quando cheguei a esta media idade senti pena do meu passado vivido.
    Bem, eu quis ser melhor, mas não me esforcei por onde, digamos, dei um trabalho danado como falam aqui no nordeste, e tudo que aprendi foi meio que atrasado; aos trancos e por complicado demais. Talvez ter suportado a dor mais do que de repente, e reconhecer feito tudo isso me valeu superações. Aprendi observando meu cotidiano, acho que uma criança se reconhece noutra quando necessário, não serão precisas as palavras quando os esforços de outros te aconselham.
    Lembro-me que quando eu tinha sete anos e notava minha irmã, era de consolar-me a única imagem familiar que eu tinha; nossa avó cuidou-nos com esmero, mas eu, não sei se por menor maviosidade própria ou imperícia infantil teimava em atirar dos gatos, bater nas aves e pronunciar indecências. Acredito que naquela época eu já ouvia bastante de radio e TVs não eram incomuns, minha sabedoria se iniciava pelos estalados de chinelos nas minhas costas, de seguidas vezes, porque eu já o reconhecia nos pisares de vovó. Por outro lado os livros de meu avô espreitavam por mim, mas disso só pude reparar quando descobri anos depois que precisava aprender a ler para trabalhar, e na época Amália já tinha seus cinco anos, minha avozinha via nela o que penso de até hoje; um paraiso, aprisco ou santa bendita. Não sendo difícil de explicar é que esta a ajudava na faina caseira e eu dava-lhe trabalhos de canseira. Não me bastando judiar de uns bichos ao quintal corri a cozinha, e minha nona me repreendia como não poderia ser diferente, aquietei-me aos choros, quando vindo já do quarto e esfregando os olhos após um cochilo da tarde eu via minha irmã a desatar pela casa, ela havia atirado o brinquedo de pano pela cama, a segui com os olhos todos os gestos. Minha avó no começo tentava afastá-la de ingênua premissa, mas seu carisma e esforço de criança animou a anciã. A garota para equivaler a altura da pia afastava uma caixa de madeira com esforços e dela se punha a subir, acompanhava a faxina silenciosa de como lavar os pratos e secá-los, e ensaboava as mãos nos utensílios diversos, minha avó ria com tudo aquilo explicando com amor próprios. Eu não via sentido disso, eu pensava ser esforço inútil, quando ela poderia ter tomado o tempo com suas brincadeiras de criança, enquanto eu via a boneca de pano dela sozinha sobre a cama. Minha irmã trazia desde pequena traços de maturidade, e só mais a frente introspecto percebi.
    Já era tardinha, e o sol alaranjava todo o firmamento. Minha vovó aos birros que montavam desenhos em pano, e Amália compassiva a acompanhava de curiosa, e a agulha de fiadeira tecia a peça tomando desenhos mirabolantes num proceder magico das cores das linhas, onde se formavam broqueis de rosas e de palavras em tons claro, num prosaico enternecedor.  A menina laboriosa não despregava de nossa parentela como quem adivinhara o futuro de nunca sermos eternos, eu como observador notei a prudência das horas, e o sitio arejava-se de frescor dos ventos litorâneos, pareciam concordar com a sutileza nobre da natureza, as criações apascentavam-se aos montes no entorno do sitio, pois a mata agreste rodeava o local, a noite chamava-nos.
    Não fui indiferente a noturna, porque ela me protegia tanto quanto minha avó, que da varanda nos contava estórias de tempos passados, e uma mão acalentava minha fronte, enquanto da minha irmã a outra descia. Nossos olhares cabiam ao céu rico de estrelas, que aludem a sorte de se morar longe da cidade, propriamente a cidade mata muitos sonhos de infância. O natural seria que acompanhássemos a natureza como no principio todos os seres o fazem, de certo que hoje se aprende forçosamente a conviver com uma problemática que não é da infância, feito o próprio consumismo, drogas e violência, bem que eu queria estar errado.  Ainda vi minha mana fechar os olhos uma vez enquanto nona nos falava, eu tinha certeza que no fundo, como eu, viajava nas contações indianistas, sertanejas e românticas. Amália tinha aos olhares um brilho ínfimo, procedente e vivido, por tempos nem piscava se maravilhando, e não bastando fazia as perguntas e inferências típicas da idade. Eu, quieto e tímido das palavras só concordava aos gestos de ambos, dormi em abraços sentindo o encosto do carinho. E no compasso das horas era deitado na cama, na outra minha irmã já descansava, e eu quase cochilando recebia um terno beijo de carinho e boa noite, respondi da mesma forma... Em contrapartida as danações diárias que me tinham, ainda supuseram um ultimo pensamento em noite; que no dia seguinte a fantasia daquele momento continuaria, por depois e depois... E eu ingenuamente descrente dos males tinha como certo que esse bem nunca acabaria, pois quando o sol me acordasse de reinado astro luzido eu entornaria de lucidez tomando-o com perfume natural, afeitos de abril, das manhãs em orvalho.

(Cléber Seagal)

Escreve-me(Scrivimi)

Escreve-me, todos teus segredos, este excogitar, esses medos que te tomam a qualquer que ama, a qualquer que dar e vê, talvez eu feche os olhos, ou me prenda para não ter que tomar minha vista ao que não seja você,

Escreve-me, mais uma vez daquelas cartas tuas, daqueles ecos de palavras soltas...mudas todo o meu sobejar, e este pensar notório que transcrevo, a imagem toda tua que vejo, hoje é meu pestanejar,

Escreve-me, como o fez nos meus lábios, outra noite era chocalho de cobra a sibilar, tece toda a tinta de teu batom no meu pescoço, aviva em mim esse viço moço que outrora trouxe para me domar,

Escreve-me, mas fazei-lo como dantes todos os poetas delirantes, que buscam no mundo a alma inspirar, esta pena força toda a intenção, move-me o coração e faltam paginas para eu chorar,

Escreve-me, por derradeiro que sejas, assim tu me deixas como outros...faz-me sonhar...e eu triste em fim ei de pensar, que absorto desejo fez numa mulher todo este pejo, esta sina minha...ah!que não me leve a pecar,

Escreve-me, enquanto essa saudade passa...passa por mim teu cheiro, teus gostos e marcas, o que fez brotar um jardim, cheio de jasmim, mas nas margaridas te florí, num novelo de saudade, procuro tanto, como eu te procurei assim; para sempre minha metade.

(Cléber Seagal)