Ola!

"A felicidade não passa de um sonho, e a dor é real... Há oitenta anos que o sinto. Quanto a isso, não posso fazer outra coisa senão me resignar, e dizer que as moscas nasceram para serem comidas pelas aranhas e os homens para serem devorados pelo pesar."(Schopenhauer)

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Quando o Amor se Vai...

Meu coração é uma barca
Do mar da solidão
De um lado o silencio farta
Do outro desilusão,

No balanço do navio serão
Destas desventuras crime
Que das tempestades oprime
O naufragar de todo o perdão,

Onde porto seguro não há
Onde aguas presenciam o distante
Minha respiração ofegante
Premuniria os males de cá,

Doravante angustias a mil
Falta por aqui ar, o tátil
E nem a possuir posso,  e de certo
Vara-me também a noite de aperto,

As inconstâncias principiam
O alarido de choro que fiam
Mais uma historia de dissabor
É rangir de dentes, queda e dor,

E esta caneta pesa em mãos
Como pesa meu coração
Ao vê-la longe partir
E meu pensamento remir,

Às vezes pedi migalhas e favor
Por vezes relutei-me do amor
Esse sentimento já foi o meu cais
Ah! Escombros do nunca mais,

Doses profundas de abalos
Gritos audíveis, sobressaltos
Um dia navegar nela me foi preciso
E hoje já não sei mais se existo,

Ah infelicidade! Mundo cão
Este meu viver de senão
Este meu bolor intransigente
Agora penso que o destino nos mente.
(Cléber Seagal)

Casa de Boneca

Não era habitual, mas acordou cedo naquele dia, e para uma pessoa que trabalha tanto e que nunca pede um tempo para si, tornou-se sua. Tomou uma escolha diferente do que suporíamos, e poderia ser qualquer dia de domingo, segundas ou terças que fosse, não iria trabalhar.  O importante é que aquele dia a ela pertencia. Livrou-se das formalidades, deixou a maquilagem de lado, o escritório, livros, desligou também o telefone (e por isso não nos falamos até a noite), e tudo o quanto mais lhe prendesse ao palpável. 

Durante a manhã andou pelo sitio de baby-doll florido, pés descalços, cabelos soltos e ar libertador; onde o sol lhe faltava o céu cobria. A relva e os ventos tomavam proporções completas no busto de donzela, na tarde escreveu o que quis e o que não quis na antiga agenda do colegial, poemas, versos soltos só para ela entender e o mundo estava azul da cor de seus olhos, embora o seu caractere humano assemelha-se ao finito, todo o universo circunscrito tornava-se infindo para quem ama.

Com exceção daquele dia, já que ela passou por mim em sobressalto, falávamos-nos sempre e à tardinha no parque, e não reconheceria tanta alegria pós perca de um grande amor. Não era sentimento de pai e mãe, pois esse luxo ao qual a grande maioria tem é renegado pelos que não se reconhecem, feito prole feroz e mal agradecida. Nós somos órfãos, recebi ela como minha irmã em vida; minha família, por isso eramos sós entre parentes distantes, e de nossos amigos nem posso contar tantas as alegrias, mas Deus  deu a ela um coração, e isso lhe bastava pra completar nosso mundo, e olha que ela tem consigo tanta introspecção a respeito da vida, o que schoupenhauer e qualquer divindade não explicavam ela buscava dentro e si mesma. Estava viúva há dois anos, sei da pessoa que ele foi para ela, mas ele também não a queria triste, sofrega, e que por um tempo preferiu ajudar os outros, e nisto sentia-se feliz. Ela se perdeu por um tempo em consciência, mas estava atenta, e a vida é muito mais do que a morte pode ser.

A felicidade é peça de momento, e quão necessário é para nós construí-la interminavelmente, passo a passo, dia a dia, se não como aceitaríamos os pesares do mundo? Não poderíamos fugir da realidade imposta pelo tempo, essa carga de pressões não pode ser carregada sozinha, como poderíamos nos ver daqui a dez anos, ou quem sabe amanhã? Só temos o agora já que tudo mais à Deus pertence, minha maninha estava construindo um castelo inteirinho sobre alicerce de pedra, mas com vista para o mundo todo. Afinal ela pensou sempre em todos nós como amigos, e eu sugeri aos demais que ela mereceria mais do que aquele dia; Amália, irmã amada.

A noite à aguardava tanto como nós, quando a encontrei já em casa, estava como quem espera, vislumbrando estrelas no terraço e de braços cruzados. Submissa à penumbra, se deixou elevar numa palavra de gesto e carisma do sincero elogio que a fiz - Que linda, nem parece minha irmã, - Sé? É você? Chamando-me pelo apelido e só o fazia quando estava bem, disse-me que as estrelas estavam todas no lugar, pois embora a terra girasse, essas luzes ficavam sempre avizinhadas das outras, e nós não conseguimos aprender com elas o nosso lugar no universo, embora o espaço seja de escuridão. Eu reconheci que o mundo estava repleto de dificuldades e isso não mudaria nossa amizade por isso existimos para ambos, e que cruzei a cidade em busca do que tanto velo de família. Não satisfeita ela perguntou-me se não era eu o mesmo de sempre? respondi dizendo que tinha certeza de que não obstante dela eu sou uma dessas estrelas de que tanto falou, e desconversei para não falar também no seu aniversario, perguntei ainda: - onde esteve durante o dia? Ela simplesmente baixou a cabeça e disse: - me procurando. Penso ter entendido o que ela quis dizer, eu sorri tímido com ela, mas apurei aquele momento tentando explica-la por que vim.

O golpe que eu dei em sua consciência quando falei do meu casamento com Verônica a absteve de muitas palavras, por eu ser seu irmão mais velho, e pela primeira vez ela poder discordar como uma mãe  do fator repentino, mas sei que estava preocupada com o fato deu não me lembrar do dia dela; li isto nos seus olhos, já que verônica sempre fora sua amiga de infância, e Amália fez questão de contribuir com nossa união amorosa. Então as atenções estavam divididas, e ela manteve um único orgulho de aceitar dizendo por fim... - Vou me arrumar Sérgio. 

Quando a deixei no lugar da festa para me arrumar senti com pesar seu pensamento, também estava tudo apertado por dentro comigo, mas todas as alegrias seriam mais delas do que todo dia o foram, e era preciso provocar-lhe hesitação, abstração de causa e irromper do mistério, os caprichos da cerimonia alimentariam as ansiedades. De longe umas pessoas me chamavam dizendo da hora e me voltei às preparações, nunca fui assíduo de surpresas; falar o que sinto, penso ser melhor o demonstrar.

Ela sentou-se a mesa com a classe que lhe convinha do momento, apertou a mão ao peito esperançosa de que lhe dariam parabéns, afinal todos os convivas eram seus amigos, seria uma formalidade tão comum a quem se ama. Estranhou quando da frialdade falavam-lhe por monossílabos, olhares distantes... Foi quando entendeu que se sentia só mesmo cercada de uma multidão que alegre comemorava tantas coisas... Menos o dia dela. Não queria presentes, apenas queria ser lembrada como um alguém na vida que morreria por seus amigos. Talvez, se ele estivesse aqui seria diferente pensou, o jeito de ele falar e a tocar trazia-lhe a confiança que todo cavalheiro amante propicia. E ela chorou amargamente mais um outono sem o seu amado.

Desejou não mais viver, pois a vida fora injusta com ela quando dela tirou o amor de sua vida, e agora estava tomando a atenção de seus amigos. Era casamento de uma amiga que coincidira propositadamente com seu aniversario, e os olhos de todos miraram nos seus, surgiram brilhos e de repente todos a agraciaram e a beijaram como uma heroína dos seus mundos, que salvaguarda sentimentos, aspirações; quando a dor chega perto o ombro conforta, logo ela que encoraja e alumia tantos sonhos... Quantos presentes ela recebeu naquela noite entre um casamento de amiga e aniversario seu. Na verdade todos os presentes que foram dados para ela de nada equivaleriam ao presente que ela é para todos nós. 
 
Quando as cortinas se abriram gritei ainda procurando seu abraço, que por ironia tanto abraço ela me procurou desde pequena e entre muitos do seu derredor não aguentei, chorando eu disse: - te amo Amália.
(Cléber Segal)

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Ultimo Frêmito

Eu solícito, tão bem te tocava
Meus delírios de amante arfavam
Um pouco mais de colo teu do que não mais seriam
São olhares tortos do que se foram,

Receosos do que pra sempre não mais serão
O dia fez se noite na minha vida
A noite fez-se de tortura fria
O meu pior pesadelo esta aqui no silencio,

Nas agruras de renegado amor
Do brilho embaçado que tentei das estrelas enxergar
E que no meu furor tentei entrever tolo de usos
Irrefutável triste destino do nunca mais,

Sinto-me um despojado, um imundo
As palavras já se foram com quem amei
Eu teimei de me ver doutros cantos
Mas só achei em mim tantos pesares,

Nem cheiros de carvalhais
Nem prosa alguma; que alegrias acharei em mim
Que desponta a um dia após o outro
Morto estarei para todo o mundo.
(Cléber Seagal)

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Triste Setembro

Liguei o passado dela das fotos aos olhos que agora notava no presente, e nela me vi apaixonado, tão entregue e intimo que já me embriagara por vezes dela, e choro.

O mestre Pessoa que o diga, contudo, não o culpo, culpo a mim mesmo, pois queria permear das incertezas heterogêneas que vagueiam do comum humano de ser, sim, de muitos dentro de si, sem ter que por si só morrer de amor por uma única mulher.

Contudo, é do penar sóbrio que eu vejo infinda meu proceder; do perto que poderia estar ao lado, do estar sem pensar, e ver sem se conter e não o dizer, e pago tudo com esta desilusão do querer a quem se bem querer. 

Eu deveria saber que me apaixono todos os dias; de tudo que está em volta dela, e por vários dias me encanto com a pedra no canto tão sozinha como eu, do coração na árvore que estava escrito: meu, e nada mais seria sem tanto a bem dizer, mas que se implore.

A vi passar entre o tempo, de desconcerto e sentimento, nada que se entregue de alvoroço feito lua ao entardecer, mas a quero além do contento, e meu ver é notório de sentir, minto quando digo que não sofri ao vê-la noutro enamorar, embora disto seja o meu viver; de sofrer de dia feito sol diurno a quarar.

É retrato tardio de inverno, triste frio, vago vazio, e dos incertos permeia a tristeza, quando da janela ao molhar nos olhos aprazíveis que visto, e a chuva é prematura lagrimada, sôfrego ceder; és meu colírio, marcando tempestades pra te viver.

(Cléber Seagal, 18/09/2009)

Terminus Est

Soa o sino na igreja íngreme
Move alto pedestal glorio de cruz
Mas falece mínimo e geme                
É veloz que me morde o reluz,

Este choro oprime derradeiro
Em alma que de conluio abotoou
Estás aqui pela morte creio
Vem do peito e me descolou,

De padecer a carne do vivente
Que a vida uma vez me sustente
Feito a foz lívida da tarde
Até dos amanheceres alarde,

Venha o poer de triste mansidão
São sombrios os destinos do forte
Cansaço da vida é minha morte
Sombras ao solo, mundo escuridão.
(Cléber Seagal)

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Por Você

Tentei não falar de rosas
E vi na omissão do meu ser
Esse levante que me fez horas
Daí reparei; sou teu ver,

Os ventos dominam meus falares
Estou longe de ti, dos teus mundos
Aconchegos que já me tomaram profundos
Sui generis de toda forma de ares,

Outras tantas vezes que te pensei
Suponho amar-te por isso sonhei
Minha mão agora consolo do canto
E no peito estes males de anto,

Toco-te em vão na imagem
Sufoco-me tão só na miragem
São inspirares que me faltam abrigo
Que não te tenho em matéria comigo,

Desajeitado, sátiro de minha epopeia
Pois toda a minha palavra é grito
Sempre por ti penso deste rito
Melhor consolo é tê-la em ideia,

Não fui à praia pra não me lembrar
Dos cabelos de onda feito mar
Dos castelos de areia que deitei vista
Dalém jangadas quaradas a mista,

Nas agruras do sereno a fuga
Da fértil solidão que cativo
Por que te quis, por que lascivo
Infindo rosto teu n’água da chuva,

Fui ingênuo de minha alcova
Malogrado de sentimento a prova
Como rosas vermelhas te vejo nascer
Do rente das montanhas florescer,

É teu cheiro lírio do campo
De toda voz suave encanto
Teu abraçar tudo aquenta
De acariciar a mim apascenta,

Meu corpo como por ti tomado
Sou teu escravo no transparecer
És minha base, alicerce de fortalecer
Poesia de traço, meu doce pecado.
(Cléber Seagal)









quinta-feira, 21 de julho de 2011

Dos Pesares do EU

Quando me olham cabisbaixo
Não imaginam em mim pressagio
Que nesta dor ora me achou
Em que mau agouro estou,

Peça armada de espantalhos
Reticente que busca do sutil
Doutros cantos fútil
Estranho e confuso de borralhos,

Tento me recompor deste feito
E não me aceito deste jeito
Deste quarto de lugar algum
Eu não sou alento, nem sou lugar nenhum,

Pedra e argamassa são cinza de cimento
Trabalho, suor, e pães diários
Minhas lutas abrigam corsários
Pilares, pedras-cal, amadurecimento,

Soa a velhice de labaredas findas
Denegrida a pele de sol resvala
Nas pernas são pesos, são esquálidas
Das mãos ressequidas me é vala,

Onde estão minhas verdades
Custas de varias vidas de serventia
Não sou mais eu nem minhas dualidades
Cantares que assombram e me silencia,

Sou esta vestimenta manchada de espúrias
Meu cansaço é marca que remeto
Olho para traz e vejo fúrias
Meu pensar forço, visto o que cometo,

Todos os dias me assento
Mas este fluxo do tempo é meu intento
Dolente, inexisto das minhas capacidades
Sou cipreste, fauno das cidades,

Esta afronta não precedida
Vês, pois sou inimigo de mim
São horas iminente de perdida
De pesares, de sobras do meu fim.

(Cléber Seagal)