Ola!

"A felicidade não passa de um sonho, e a dor é real... Há oitenta anos que o sinto. Quanto a isso, não posso fazer outra coisa senão me resignar, e dizer que as moscas nasceram para serem comidas pelas aranhas e os homens para serem devorados pelo pesar."(Schopenhauer)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Lembranças

No canto da sala o isolamento do tempo ; angustia do momento, o sopro que uiva-se no vento, nas colinas além da janela tentam pensamentos, e no sofá se assentam minhas ideias ainda que tu não me queiras.

Todo o estigma de minha dor rarefaz, sento a cabeça no acolchoado, meu declinar dorme com minha mente, sopro do espaço iminente traz saudade nunca sentida, mas também todas contigo lidas. 

Já não sou mais tão forte, nem tão meu, e tremulo de frio adentro do meu peito; angustia certa, do que serei e do que verei, assume na vista e meu vislumbrar no teu embaça, dor somente se constata. 

Algum tempo, sozinho eu me lembro e no meu quarto lamento que tudo se foi, nem fotos pintadas a mão nem teu cheiro basta, lençol e marcas, mesmo a canção me declaram que nada é eterno, pra sempre nunca mais, e isso me dói.

E a verdade que nada me valha, se essa carta que remeto sobre você, talvez me mantenha aonde eu não posso ir, se eu chegar tão perto que seja de teu coração e mais perto do teu bem querer, ainda vou estar aqui. 

E digo mesmo me contestando, que estas provas de bem querer e que amo, fazem-me ouvir, que chegue além do papel, e do teu pensar que esteja, e o que mais eu houver de tratar, porque guardo sempre o melhor de mim para te sorrir.

(Cléber Seagal)

Infância

   Uma vez divagando sobre infância, depois de ver algumas outras crianças a brincar pelo terreiro me reti a esta idade, e lembrei, mais do que de necessidade de ser. Na verdade eu queria tanto ser pai, creio que a paternidade assente as benignidades que completam a existência, pois embora o homem não seja eterno finda-se numa semente do que plantou em vida, do que propriamente escreveu ou falou, mesmo que esta prole seja comparada ao nascimento de um novo ser. Copiosamente me fiz essa pergunta algumas vezes, sem saber que a resposta já a tinha comigo, de certo hesitei muito do que não conheci, e ainda fui áspero, incontrolável e fútil mui vezes, prova de minha complacência com a idade, digamos, esta explosão hormonal que a muitos afronta de certa juventude, me sentia dono do mundo e o mundo era só um brinquedo antes admirado de meu quintal. A gente acredita e menospreza decisões tão fáceis como se fossem comuns, na verdade as circunstancias nunca são as mesmas, e claro paga-se pelo mal feito. Noto que minha infância até amadureceu minha adolescência e quando cheguei a esta media idade senti pena do meu passado vivido.
    Bem, eu quis ser melhor, mas não me esforcei por onde, digamos, dei um trabalho danado como falam aqui no nordeste, e tudo que aprendi foi meio que atrasado; aos trancos e por complicado demais. Talvez ter suportado a dor mais do que de repente, e reconhecer feito tudo isso me valeu superações. Aprendi observando meu cotidiano, acho que uma criança se reconhece noutra quando necessário, não serão precisas as palavras quando os esforços de outros te aconselham.
    Lembro-me que quando eu tinha sete anos e notava minha irmã, era de consolar-me a única imagem familiar que eu tinha; nossa avó cuidou-nos com esmero, mas eu, não sei se por menor maviosidade própria ou imperícia infantil teimava em atirar dos gatos, bater nas aves e pronunciar indecências. Acredito que naquela época eu já ouvia bastante de radio e TVs não eram incomuns, minha sabedoria se iniciava pelos estalados de chinelos nas minhas costas, de seguidas vezes, porque eu já o reconhecia nos pisares de vovó. Por outro lado os livros de meu avô espreitavam por mim, mas disso só pude reparar quando descobri anos depois que precisava aprender a ler para trabalhar, e na época Amália já tinha seus cinco anos, minha avozinha via nela o que penso de até hoje; um paraiso, aprisco ou santa bendita. Não sendo difícil de explicar é que esta a ajudava na faina caseira e eu dava-lhe trabalhos de canseira. Não me bastando judiar de uns bichos ao quintal corri a cozinha, e minha nona me repreendia como não poderia ser diferente, aquietei-me aos choros, quando vindo já do quarto e esfregando os olhos após um cochilo da tarde eu via minha irmã a desatar pela casa, ela havia atirado o brinquedo de pano pela cama, a segui com os olhos todos os gestos. Minha avó no começo tentava afastá-la de ingênua premissa, mas seu carisma e esforço de criança animou a anciã. A garota para equivaler a altura da pia afastava uma caixa de madeira com esforços e dela se punha a subir, acompanhava a faxina silenciosa de como lavar os pratos e secá-los, e ensaboava as mãos nos utensílios diversos, minha avó ria com tudo aquilo explicando com amor próprios. Eu não via sentido disso, eu pensava ser esforço inútil, quando ela poderia ter tomado o tempo com suas brincadeiras de criança, enquanto eu via a boneca de pano dela sozinha sobre a cama. Minha irmã trazia desde pequena traços de maturidade, e só mais a frente introspecto percebi.
    Já era tardinha, e o sol alaranjava todo o firmamento. Minha vovó aos birros que montavam desenhos em pano, e Amália compassiva a acompanhava de curiosa, e a agulha de fiadeira tecia a peça tomando desenhos mirabolantes num proceder magico das cores das linhas, onde se formavam broqueis de rosas e de palavras em tons claro, num prosaico enternecedor.  A menina laboriosa não despregava de nossa parentela como quem adivinhara o futuro de nunca sermos eternos, eu como observador notei a prudência das horas, e o sitio arejava-se de frescor dos ventos litorâneos, pareciam concordar com a sutileza nobre da natureza, as criações apascentavam-se aos montes no entorno do sitio, pois a mata agreste rodeava o local, a noite chamava-nos.
    Não fui indiferente a noturna, porque ela me protegia tanto quanto minha avó, que da varanda nos contava estórias de tempos passados, e uma mão acalentava minha fronte, enquanto da minha irmã a outra descia. Nossos olhares cabiam ao céu rico de estrelas, que aludem a sorte de se morar longe da cidade, propriamente a cidade mata muitos sonhos de infância. O natural seria que acompanhássemos a natureza como no principio todos os seres o fazem, de certo que hoje se aprende forçosamente a conviver com uma problemática que não é da infância, feito o próprio consumismo, drogas e violência, bem que eu queria estar errado.  Ainda vi minha mana fechar os olhos uma vez enquanto nona nos falava, eu tinha certeza que no fundo, como eu, viajava nas contações indianistas, sertanejas e românticas. Amália tinha aos olhares um brilho ínfimo, procedente e vivido, por tempos nem piscava se maravilhando, e não bastando fazia as perguntas e inferências típicas da idade. Eu, quieto e tímido das palavras só concordava aos gestos de ambos, dormi em abraços sentindo o encosto do carinho. E no compasso das horas era deitado na cama, na outra minha irmã já descansava, e eu quase cochilando recebia um terno beijo de carinho e boa noite, respondi da mesma forma... Em contrapartida as danações diárias que me tinham, ainda supuseram um ultimo pensamento em noite; que no dia seguinte a fantasia daquele momento continuaria, por depois e depois... E eu ingenuamente descrente dos males tinha como certo que esse bem nunca acabaria, pois quando o sol me acordasse de reinado astro luzido eu entornaria de lucidez tomando-o com perfume natural, afeitos de abril, das manhãs em orvalho.

(Cléber Seagal)

Escreve-me(Scrivimi)

Escreve-me, todos teus segredos, este excogitar, esses medos que te tomam a qualquer que ama, a qualquer que dar e vê, talvez eu feche os olhos, ou me prenda para não ter que tomar minha vista ao que não seja você,

Escreve-me, mais uma vez daquelas cartas tuas, daqueles ecos de palavras soltas...mudas todo o meu sobejar, e este pensar notório que transcrevo, a imagem toda tua que vejo, hoje é meu pestanejar,

Escreve-me, como o fez nos meus lábios, outra noite era chocalho de cobra a sibilar, tece toda a tinta de teu batom no meu pescoço, aviva em mim esse viço moço que outrora trouxe para me domar,

Escreve-me, mas fazei-lo como dantes todos os poetas delirantes, que buscam no mundo a alma inspirar, esta pena força toda a intenção, move-me o coração e faltam paginas para eu chorar,

Escreve-me, por derradeiro que sejas, assim tu me deixas como outros...faz-me sonhar...e eu triste em fim ei de pensar, que absorto desejo fez numa mulher todo este pejo, esta sina minha...ah!que não me leve a pecar,

Escreve-me, enquanto essa saudade passa...passa por mim teu cheiro, teus gostos e marcas, o que fez brotar um jardim, cheio de jasmim, mas nas margaridas te florí, num novelo de saudade, procuro tanto, como eu te procurei assim; para sempre minha metade.

(Cléber Seagal)

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Casa de Taipa


Quando chega a noite não há muito por onde olhar, de um lado a alvenaria espessa dos arranha-céus e do outro a sobriedade desumana dos que vivem do poer, uns pedem, outros trabalham, e demais que se dão ao luxo de comemorar fazem da escuridão um leito de normoses, eu já passei por estas ruas, e apesar da diferença dos nomes são todas similares, na verdade deste mal sofrem-se todas as capitais, aglomerados urbanos, tentativa de sobreviver.
Um senhor já em senil idade acende um cigarro, e sentado no banco da praça admira dos feixes de luzes que correm as ruas, pois ao olhar para o céu não viu estrelas; margeado escuro desceu vista, apenas a constatação de mimicas de cadentes que dispunham em meio ao centro da cidade, umas azuis, outras amarelas e ainda brancas... Transitório este consenso entre natural e artificial, porque ao dia nem luzes vejo, só observo faces marginalizadas.
Já vai tarde prediz outro homem que para na noite, e o frio margeia de ventos todos os lugares, quem tem casa à procura, quem não tem ajeita-se na rua. Ainda que nos grandes centros seja cômodo dormir diante das vitrines, das lojas e das propagandas que fermentam a ilusão subalterna de pesares, os mais frágeis apenas olham o palpável. Uns adultos entendem que o sonhar é utopia, e as crianças o fazem de esperanças certas, ainda lembram-se das fadas e dos gênios da lâmpada, gnomos em veste característica... O pai não sabe o que dizer a uma criança que enseja tanto um brinquedo, para um adulto basta existir, mas nada basta a curiosidade da juventude, foge-lhe a ideia; sonhar é necessário. Por isso o senhor arrasta o pequeno, enquanto começa a neblina.  
Foram no ônibus e a pressa da chuva era inerente, não diferente dos demais que iam à condução, era excepcional preocupar-se de chegar em casa e buscar abrigo. Dos vidros já goticulados os menores tomavam tempo, a paisagem muda de prédios e mansões para casebres a parte, então a chuva chega para os da região norte. E já se chegando a outra parte da cidade se fazia lama no caminho para a casa de taipa, eram 22h00, a mãe dos meninos esperava solene e ansiosa, porque pelo contrario de alguns burgueses, políticos que fosse; pobre também tem família e ama, carece de viver.
As crianças correm na noite ainda que se molhando da chuva, abraçam a senhora que os traz a dentro, o senhor retribui o sentimento da mulher, depois disto ele olha uma vez o céu, depois olha para a casa, faz um pai nosso e adentra rápido com a parceira. O que se segue são trovoadas, o filho menor inicia o choro; estranho para o pequeno, enquanto o segundo apenas ajeita o canto da rede, o terceiro ajuda o pai e a mãe na coberta das biqueiras por dentro de casa; bacias e baldes não o faltam. No nordeste era difícil chover, pedia-se sempre que o inverno chegasse para apascentar a seca definitivamente severa. A capital não precisava de tanta agua, mas chovia, e aquela agua não tinha para onde escorrer, as construções também eram simples, igualmente aos moradores. E aquele inverno de 1990 foi um dos maiores.
Seguem-se as horas... Era então madrugada, ainda estava quente o colo da mãe, e no outro o pai ajeitava mais dois. As cobertas eram poucas às necessidades, ainda cabia ali um abraço cortes, um carinho. Enquanto o senhor cochilava com a família no quarto um estrondo, uma das crianças despertou aos prantos, entra-se o desespero, ao avaliar do barulho em meio ao da chuva a família repara que metade do casebre caíra, sobrou-se um quarto e a sala, a mãe dizia: - Meu Deus do céu, o homem resoluto apenas aparava as demais paredes verificando se não corriam risco a família, mas a agua não para de escorrer, a mulher ainda contava as crianças; estavam todas bem. Todos molham os pés, e a preocupação é de se atrepar todos os materiais, os meninos entendem a dimensão da desgraça, os dois mais velhos correm ao pai para ajuda-lo, enquanto o menor a mãe levanta.
Agora o homem duvidava de Deus, rogar a ele não adiantava, mesmo sendo a ultima coisa a que acreditavam, e não haveriam outros lugares à ir, nem durante a noite e nem depois, o que caberia a um pai de família fazer quanto a este infeliz destino, porquanto que dos homens já foram esquecidos, e agora o sentimento de esperança seria o único que lhe tomam, juntam dos escombros ate amanhecer, e as rezas já não bastam sem as ações. Os vizinhos durante a manhã percebem o mal e fazem-se de ajudas. É necessário ter forças, não desanimar, e daí até o pequeno já contribui, e a mãe não sabe o que fazer depois dos escombros. Difícil viver acerca da sobrevivência, enquanto a casa não mais tinha além de a metade e mesmo com fins da chuva as nuvens acobertavam-se de medo, e a família já não via com bons olhos o firmamento.
O senhor olhou ainda pelo espelho no chão, visto que a desgraça se abate forçosamente sobre quem menos tem condiçoes, e já não bastando as doenças, fome, solidão, egoísmo, abandono, hipocrisia, desrespeito, e desastres naturais, lembrou do simples fato de não ter nascido em condições favoráveis, mas que lembram resistência e colocam-no numa tragédia. Não viu necessariamente em Deus a culpa, se este existir, mas enquanto saía dos amontoados pisou uma flor ainda persistente; margarida. E também lembrou mudando o semblante; coexistência entre bondade e maldade, e definiu: a culpa é mesmo do ser humano.  

(Cléber Seagal)

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Alegando...


Afora todas as de amar dessabores
Ficaram meus dedos de dores
Cicatrizes das notas no violão tocadas
Rascunhos de choro que não logradas,

Era cedo para o cantor,
E meu orgulho desabrochar
Na realeza da palavra Amor
Flor é todo sentimento a tropeçar

Amo sozinho e as escassas,
E nem pássaros e nem grilos mudam meu missivo
Reles todas as palavras
Que socorrem a um depressivo

Imito o semblante de um urutau à cerca,
Paralisou meus pensamentos de abolinar
E a janela parece muito mais estreita
Isto só a quem quer tanto respirar.

Oh! pobre de mim que sou sofrido
Tao cruel predestinei lívido
E minha cama dorme noites sinuosas
Como os espaços que assentem a portas.

Ei criança, dorme bem como se assim fosse
Não te atentes a esse mote
Imaginas que o tempo conduz
A manha há que se produz.

(Cléber Seagal)

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Desgosto


O medo da solidão eu sei vem me tocar
A porta está trancada
A palavra foi mencionada
Nada mais há de me restar,

Corro pelos cantos aos prantos
Mas a alma vã a desmontar
E esse sorriso intrépido, outrora certo
Agora só a tristeza a me torturar,

O sozinho é tímido e moroso
Noutra parte da rua receio o desgosto
Avista ao longe o que mora
Embora o hoje se demora no fundo do meu coração.

(Cléber Seagal)

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A Noite do Angustiado

Não sei o que faço, já passaram por mim vários destes senhores que vigiam da noite,
Dos limpadores que acordam, porquanto a cidade deita, e ajeita mais um dia de faina,
Segue-me suburbano um cão, e este é meu companheiro de angustias,
Enquanto a felicidade não me sorrir, e nem o céu pôde me abrir,

Não me bastando a treva, seguem-se as lagrimas,
Ainda que ultimas falhas, de andar a rua a meio e todo o desterro de almas que alariam
Tomam-me a arrepios, e o pingo de gota que desce da calha, clama o que dissolve,
Inunda toda a calçada, e a praça toma-se de gralhas que assombram,

E não é mais a penumbra que come, nem a solidão que descolore,
É o peso desconcerto desta madrugada insone, é meu pisar que dorme,
Enquanto todo o resto caminha, não há um ser vivente que teime da noite,
Tudo são labirintos, e a demora faz-me irromper do relógio, do monologo meu,

Aresta fria que assume quem sou eu, e saltimbanco de arrimo desmontou o tempo,
Minha piada feita de brinquedos põe-me a prova nas muralhas e cinzeiros,
São vícios, pronto estreito, e a fumaça se esvai nas passadas do homem que ainda fala,
E da boca de um senhor que já foi escrachada, ideia saboreada na palavra de um bêbado.

Corre noite, corre o luzeiro, e aqueles que dormem combalidos não sabem da metade,
Da tristeza que invade as almas de um trigueiro, e mesmo sabendo que me sejam,
Não o provam além do desejo, e minha alma corta a luz da lua, meu mundo estreito,
Eis-me noite, para outros talvez firula, Soa quase um cume de afago desespero,

(Cléber Seagal)