Ola!

"A felicidade não passa de um sonho, e a dor é real... Há oitenta anos que o sinto. Quanto a isso, não posso fazer outra coisa senão me resignar, e dizer que as moscas nasceram para serem comidas pelas aranhas e os homens para serem devorados pelo pesar."(Schopenhauer)

terça-feira, 2 de julho de 2013

Palavras para uma noite estrelada


Por que choras na noite doce pirilampo estrelado?
Na atmosfera de negrume consome-se,
Um espaço indivisível de olhar, infinito céu esperando,
Meu ver não cabe ainda o que está dalém dos cardinais,
Assim espero o improvável no fundo do sono,


Há um vácuo entre planetas, sob signos vãos,
Teorias e cálculos que minha mente rarefaz,
Os astros movem-se e as pessoas param,
Na mesma velocidade da razão,

Nas galáxias que desconheço estou no silencio,
Espremido em poeiras de minha obstinação,
Haverão estrelas neste sul que eu desconheça,
Como os sentimentos que provam meu coração,

Tenho por um tempo a calmaria dos seres,
tenho um apreço pela lua que te avizinhas,
Num alto de luz e sobejo,
E na outra esquina, nem eu mesmo me vejo,

Paz eterna, obscurecer das noites certas,
Uma estrela apascenta a terra quando brilha,
Parece me enamorar, num cintilar corrente,

E a toda a toda Gaia vislumbra descrente,



As outras se espelham numa luz que não tenho ao todo,
Mas que nasce por todos os dias,

Quando tu também o vigias, as vezes vê a grosso modo,
Admirar, descrer-se das coisas imanentes, 
Pergunto, de um espírito de revoada, translucido contente;

Porque choras num sereno remindo?
Eu aqui no teu espaço, meu espaço cadente,
Lirismo de tímido sofisma...
Sorrateiro eu te admiro numa altivez de universo,
Que soa límpido, na incerteza desta terra,

(Cléber Seagal)

domingo, 2 de junho de 2013

Sistemas


Nada somos, mas tudo fomos,
E aquilo que seremos é sonho,
Uma vez por dia lembrar,
Outras vezes imaginar,

Nos desviamos e somos medo,
Cerca-nos o segredo,
E a pedra de nós rarefaz,
Para quem tanto vivemos?
Se não contamos de sermos,
Nossa vida de talvez se desfaz,

Insípido é viver sem efeito,
Mormente que nos separa,
Queixas que nos tem feito,
Daqueles a quem sou vara,

Na lei o que vejo é regresso,
No homem a figura de gesso,
Assim vejo, Ideologias diversas,
Meu desprezo é de obras diversas,

O aspecto da sombra bafeja,
A ordem é mentira numa silhueta,
O prazo diminui os deveres,
O modelo de vida os prazeres,
Sob a maquina a dissipação,
Sob o coração a angustia,
Meu ver não cabe alienação,

Na injustiça uma assimilação,
Nas ideias afora astúcia,
De que o ser humano divisa.

(Cléber Seagal)

Cegueira Diurna


O caminho que estreito minha vida é minha sina,
Onde ando por espinhos e matagais,
A vista escurece aos poucos, e eu não deveria dizer,
Só que eu não sei até onde chego,
Desço ao íngreme mar de fogo que me arrefece,
Já me é tudo uma noite,
No túnel sigo uma luz que se vai longe,
Nunca chego, a imagem se perde e eu me perco,
Desço ainda mais ao ultimo sentido das existências,
Porque meus avós se foram, meus pais o seguem,
Por que eu não não passaria assim como muito,
Já foram uma história mal contada,
Passei a maior parte de minha vida assim;
Esperando algo que finda, para nunca mais ter de esperar,
Fiz um pacto, não com mefistófeles,
Segundo disse um certo alemão,
Mas me vendi ao tocável, nisto fui efêmero,
Se por malicia inútil fujo do que peço,
Não me chores, nem vele por mim um cântaro,
Porque escuto o escuro e vejo o silencio,
No meu amadeirado vejo ironias,
Ser guardado nalgo que já foi vida,
E pelos seres humanos cortados,
No fim, junto comigo ser mais um convalescido,
Aqui não há escolhas,
Oras! não tenho mais direito no meu mal-dizer,
Nisso tive tudo em vida sem pedir,
E no fim recebo como dores aquilo que subtrai;
No mais, meu espectro de vida tem me cobrado.

(Cléber Seagal)

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Palavras Vãs



Te digo que sinto falta,
Da palavra bem falada,
Nosso jogo de entrar-se sem pedir
Todas as vezes que lembro a medir,

O passado em ti contemplável
Como quem lamenta o retornável,
Nada me tenho do que sangue
E nervos que me arranque,

Eu então vou a malograr por extensos
Nas palavras me condeno,
A ti vigiar, vigiai ó tolo de mansos,
O que traz seus momentos,

As vezes sofro, deixo transparecer
E se de tanto imaginar aparecer,
Corro, latente eu chamo
Minha noite quase como,

Uma vez mal dormida, errar...
Outra tentativa e eu carecer,
Talvez não precisa de me lembrar
Talvez... Uma vida e nós a morrer.

(Cléber Seagal)

Lamentos de Momento

Moça tão bonita, não sofras, não seja cara,
Quando o caminhar pesa aos pés a esperança segue,
E aguardo que tu vestirás seu olhar cinderelo que embebe,
Todos sonhos em bandejas, verás que a dor sara,

Um dia te serviram todos os teus desejos,
E os becos sentem as obras de quem pinta,
Uma vereda de pejos que se foram,

Não se mintas, olhe todos os teus amores tardios,
Veja como obras do que sobraram,
Abaixo escombros, levanta-se alicerces ao céu,
Teu eterno cobertor de santos.

Adiantou chorares noite adentro?
Quando a cerração novamente se desfaz,
Olha para mim e diz ao lento,
Onde andam teus ais, que eu também te choro,
Como assim faço por dentro.

(Cléber Seagal)

terça-feira, 23 de abril de 2013

Uma Vez Chuva

       Eu não imaginava que a chuva chegasse, mas desejava. Como quem espera um ano e pudesse esperar mais, ela me surpreendeu de mansinho... Das vezes que eu olhava o céu, contava estrelas imensuravelmente, talvez por não tê-las em pessoal, também as desejava. Mas esta noite fora diferente das demais, que de um céu coberto nublava meu insistir, eu também agora esperava que as estrelas fossem gotas d’água... Porque em mim a mudança do tempo muda meu jeito de sentir e estar, enquanto já chegavam às trovoadas.

       Depois de alguns minutos eu me acercava do batente da escada, deixava-me tomar serenamente do tempo que me era até então compassivo, parecia que me preparava para o ensejo. Derreado o céu cumpria seu destino... Eu me molhava... Sentia as gotículas uma a uma e meus olhos brilhavam, pareciam preces celestes.

       Eu contava cada impressão d’água na pele como estrelas que cismavam num cerne introspecto da madrugada. Eu apenas ouvia o barulho da chuva, o desaguar que escorre pelo chão são minhas angústias, desesperanças a irem de mim carregadas por torrentes, para mim o passado desta tempestade já foi medo, agora admiro minhas alegrias.

       Passeei pela cidade, um andarilho que seguia a luz difusa dos postes, vez por outra me encostava às biqueiras artificiais, cada trecho que passava meu discernimento se contemplava das marginais solitárias, tergiversei meus rumos... Aqueduto de liberdade em que poucas vezes naveguei, desde criança não sonhava tanto.

        Terminei sentado na escada, observando a velocidade do temporal, hora eu marejava, hora a força n’água parecia conversar com o sereno. Senti que tudo me tocava numa nostalgia de acertos e erros, numa das primeiras vezes em minha vida não quis que a agua parasse, o frio me convinha num céu escuro de infindáveis pensamentos, confortável a tanta agua, por que naquele momento eu também era ela.


(Cléber Seagal)