Ola!

"A felicidade não passa de um sonho, e a dor é real... Há oitenta anos que o sinto. Quanto a isso, não posso fazer outra coisa senão me resignar, e dizer que as moscas nasceram para serem comidas pelas aranhas e os homens para serem devorados pelo pesar."(Schopenhauer)

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Colcha de Retalhos

O desejo do cego testifica uma vontade humana de ver além das aparências... O surdo agradar-se-ia bem mais do canto tão profundo, que faz o mais intimo do humano; a alma escutar. Sem que o teor das alegrias sejam notadas, o coxo saberia bem ser andarilho em suas corridas pela vitória...

Pergaminhos de Adão, creio que eu enganaria meu coração se não cativasse um sentimento tão ínfimo, mexe com a minha cabeça, e deixa a ver do eterno sem dissabores, e se nas cordas deste vento me balançar em amores, nunca mais viverei a vida para chorar,

Em brilhos, maravilhosos campos mais do que belos, porque não satisfazer a minha ‘alma? Sou rapaz, e de caçar entre jardins de tulipas, rosas e demais flores que fosse, sento-me em baixo desta arvore, e me deixo seduzir por uma linda margarida,

Ignorei-me em opor conflitos e pelejas, na busca por razões, ferido do incorreto; prole de homem se foi, abrindo-me em mares de virtude que de nada equivale ao simples desamado que fui, todavia de que me vale viver sem ti?

Melhor à noite sem estrelas, ou ainda o céu diurno sem o sol. Do que caminhar por labaredas transfiguráveis em doses de amargura, e ser privado de teus olhares, nunca ter tido uma única esperança: Amar-te.

(Cléber Seagal)

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Epitáfio

Algumas vezes ele sentou naquele batente a sorver o tempo, muitas vezes procurou motivos para se sentir útil na vida, sabido é que meus comentários para ele pouco serviam, ele era dono de si como mesmo falava. E porque catava coisas no ar se sentia resignado a sofrer da solitude e viuvez; não sei como um coração suportou tanto estar-se sozinho. Talvez como as folhas nascem unidas e algum dia caem do pé maturadas, assim seja o homem em suas compreensões mal resolvidas.
Quando moleque ele me lia os olhos, hoje eu leio os dele, minhas quedas em arroubo de infância, meus medos também foram os seus, minhas historias irremediáveis de fã seu. De pai glorio pertinente dos trabalhos diários ao amigo; seus braços aparavam-me no sono enquanto eu sonhava. Porque as rugas não abalaram a estrutura de homem que o era, a tez queimada de sol, cabelos brancos coroados, e a dureza ainda no corpo que teimava; A idade é uma desfaçatez imensa do tempo, carrega-nos ao ventre da terra sem querermos, e os que ficam choram a predominância do ponteiro.
Eu ainda o observei, mas ele dirigiu a face ao horizonte, dalém das palmeiras, isso éra incógnito para mim, porque a visão é vasta e o pensamento também, mas uma lagrima escorre em seu rosto, e já não sei se é saudosismo ou dor... Ele desceu a caminhar todo o terreno, e a todas as arvores, que, aliás, ele já as conhecia bem, e deixando-se tocar das folhagens, porque então ouve-se o vento nas paragens a mitigar, parecem concordar com o coração intenso do dono. Talvez seu único abrigo fosse dentro de si, no excogitar junto da cadeira de balanço; vaivém, remansos e leitos serenam solidez.
A idade só resvalava em cercanias de medo, o que me era compreendido em flor de idade, eu não poderia comparar a minha tola sabedoria dos erros de 20 com bem-aventurados 72 anos.
Paulatinamente apreendia-se do mundo e este não acabou de concebê-lo, nunca se aprende o suficiente, caso que merecia muito ser meu pai um todo, já que nossos pais são sempre os melhores do mundo, resguardo-lhe em memorias para que não fique retido apenas no vácuo da poeira do tempo. Utopia minha tentar parar o relógio, enquanto meu velho já tinha se entregado as agruras dos minutos, eu me preocupava, e agora perdia parte do meu senso. Porque quando menino não se tem a noção do perigo crente, e adultos concebemos essas ideias quase incontroláveis do não existir, e tememos nunca mais amar, tocar e ser amado, pois o que há depois de uma lapide escura?
Ele bateu as botinas na soleira, assim como a vida se ia, caía também a poeira, ultima levada de esperanças da terra que ele tanto cativou, de semeaduras plantou sem luxuria, adendos de felicidade. E me falou da satisfação da tarde, e olhou como nunca dantes, mas sempre que estava resoluto, abraçava-me dizendo e rindo por coisas além das palavras: - A infelicidade estava estanque do outro lado da cova... Fria, triste e agonizada.
Feito dois anos do falecimento de mamãe, eu não queria mais imaginar o que se passava na mente de meu velho, para mim, minhas lembranças são tão tristes, esse cemitério em mente que ele tem seria muito para que eu suportasse, mas eu já sentia que a dor dele é inevitável aos seus pares, comigo com quem conviveu fez-se em milhares de apelos. Abruptamente saí e o inequívoco dormente que senti é o observar de papai na cadeira de balanço, lenta, serimoniosa. O barulho dela me assustava também, me inquietava o marasmo, parece interpretar minhas angustias, a velocidade do balançar diminuía, de tanto aguados os olhos findaram em seco, a cabeça levantava em prece, ele tirou os óculos ao colo, corri para salvaguardá-lo, não bastou, entretanto escutei-o dizer em ultimo sussurrando: - é chegada a hora da colheita.

(Cléber Seagal)

quarta-feira, 21 de março de 2012

Menina do Abril...

Enquanto ela arruma das flores
Um rouxinol anuncia o anoitecer
Delicada aprecia das cores
Nem parece que conta o envelhecer,

Saia cortada em cetim
Birros grandes de marfim
E na cabeça sonhos tantos
Peito de ar entoa cantos,

Plumas enlevam seus cabelos
Celeste, são doiro os cachos
Sátiro sorriso, lindo de ser
Havidos como de florescer,

Lírica e visível embarga seres
Que de belezas não viram mil
Anima o espaço de saberes
Foi-se inverno de abril,

A terra não é mais só flores
Não mais cores de pintar
Formam todos os amores
Pássaros a encontram no bailar,

O dia passou corrente e relume
 Aposto vê-la discorrer dum canto
Que acompanha a tez de lume
Só pra fugir tão triste pranto.

(Cléber Seagal)

terça-feira, 13 de março de 2012

Taciturno

Olha para a noite,
Olhaste e te viste perdida na nebulosa,
Que acaricia as nuvens e o céu de prosa,
Olha para a noite,
Em senda fumê,
Que tardia para o dia,
Obscura mimosa de o ser,

Assente aos seus e olhe os meus,
Que em voraz sentimento corrompe desejos,
Seria uma deusa nos céus?
Assente aos seus e olhe os meus,
Riso de detalhes,
Formam o crime de não tê-la,
Assente aos seus e olhe os meus,
Que de tanto a procurar-te,
Na imensidão da noite fazem-me todo teu,

Choroso cantam os grilos,
Os pássaros em gemidos de negra vagalidade,
Talhe troça que varia a ineptidão da soturna,
Abre um leque de piedade,
Choroso cantam os grilos,
Em acasalamento colocam a arrepios longínquos,
A castigarem breves soluços furtos,
Transformam minha solidão numa vulgaridade,

Estrelas límpidas cintilam,
Olhai meus ritos,
Inibidos de causa conclamada,
De Parsifal abafada,
Estrelas límpidas cintilam,
Ignoram meu ver,
Antecedem luzes e em cruze montam,
Cozem sonhos até o alvorecer.

 (Cléber Seagal)

sexta-feira, 2 de março de 2012

À Minha Julieta; Versos Intimos


Cocei meus olhos, e na minha quieta manhã inquietei-me, o calor que o sol tomou me fez mais uma vez te imaginar, nessas horas de constante pratica e dedução, não me abstive de te pensar. Já cantei um fado rasgado, e te imaginei, soando a deslizes de: se viverei.

E ainda testando minhas certezas, meus planos, salvo quando te vejo como anjo, são luzes de olhares que se vão, e o tempo não para, para me permitir mais uma noite sã, mais um engano do relógio. Um mimo de quem não pode contar com a eternidade lúdica de um beijo.

Quando como se bastasse o vento, e este inebrio solene que me provoca e mostra onde apenas ele te toca, e desloca deslumbrante cheiros, ainda advém de ti, orgulhosa ventania que o és, desenha as nuvem em cachos plágios de teus cabelos a sorver.

Mundo perigoso este, não nos compreendem as pessoas, escapa-me te buscar nos meus pensamentos e por vezes que estamos distantes, inorgânico é ceder as fotos, tua forma de materializar, e meus gritos assimilam ao choro solicito de meu palpitar.

Nasce gente, cresce o mundo, e meu mundo é único, não preciso de muito; pertenço-te, e nessa alcova fria de vazia com lenços, de desejos e alegoria eu mereço teu seio, teu afago, ínfimo, possessão de notívago assumo-me irado e contigo já penso da solidão do nem sempre.

A miragem descoberta no ser, amar de perto, atento de acertos minha vida contigo atrai, move-me diretamente ao que realmente sou. Descobri não apenas de desejos formam-se alegrias e flores, pois de uma coisa se fazem as princesas: de castelos e sonhos.

(Cléber Seagal)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

O Principio das Horas

É rumado o ponteiro de opaco relógio, o silencio dos quartos na casa amontoam mais horas, coberta fria que tenta requentar esta mórbida obra, este terço de século acabado serás ainda coisa morta.

E lá fora o inacabado gelo dos viventes estende-se a uma fossa, de defeitos e sentenças, assolam a mim, que procura tanta razão nos seres, tanto crer e demente me sinto causticado, tolas horas minhas de reflexão dormente.

O passo diminuto de olhares ao chão, eu admiro os guarda-chuvas abertos em contraste das almas fechadas, improprio é todo o tormento, dos que passam e olham fingidores do bem; não os comovem as dores, das saudosas felicidades uma vez provadas.

Minhas unhas que crescidas machucam-me a apertar este zelo de lençol cor de carne, atolam-me numa rede, e sinto ainda um descompromisso contente com meus hábitos, solidez aflorando-me longe e de mim mais um dia ausente.

As aranhas a fiar nas paredes casas tocadeiras, os grilos lá de fora chamam parceiras, a luz ilumina a escuridão do meu lado, e as goteiras procuram resguardo no meu quarto, crendo-me noutro lugar de passado memorável, onde as preocupações não me metiam em bugalhos.

No relógio de segundos e minutos mais falhos de minha vida, inospito mal olhado, eu admiro o compasso finito das vindas, de todas as vidas que nos passa a arremessados, rápido num piscar, numa alcova diminuta minha, consome todos os meus pecados.

(Cléber Seagal)

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Primavera Vermelha

As ruas estão em polvorosas, se estendem de andarilhos que se queixam, e alariam do pouco, o que é demais a quem sempre tem mais. O compasso do dia tende a vibrar, são gritos que provocam, chama a quem entende a causa, tocam a qualquer que conheça a ação.

Não há mais espaço nestas vias, neste alarde que conduz a diuturna aclamação, assume o pedido, a prosa nossa de tentar, resguarda os que dormem e os que amanhecem para trabalhar, é a força da coragem insone, é a prova de heroísmo que rompe a marginais.

A cidadela irrompe de vermelho nas praças, das casas de família, para o tempo, para a palavra de ignorância, tomando agora das vestes as mentes, e das mentes os corações já rubros de tanto sofrer, tanto lacrimar; lembram sangue já vistos noutros, abraços de socorro e sem ar.

Este pedido não tem trégua, não suporta mais o negar, o denegar omisso de poderes que de opróbio sufocam o trabalho de quem mais dele se eleva, consagra-se na luta diária. Comprova-se a faina nas dores familiares de sujeição cotidiana, e de nem sempre dos amados abraçar.

Das incertezas estes sujeitos vivem, são mártires homônimos constantes, a criança que lhe pediu ajuda o sabe, já foi cidadão que carece de defesa, sabe-o também a gravida que dele se valeu e a socorreu. A mão que tirou dos escombros e o corpo que de escudo também usava.

E as folhas caem em tempos, mas não cai a vontade desses homens que enfrentam a madrugada, que afrontam sonhos, e as rosas se confundem com suas cores, e com seus sentimentos, seus sacrifícios não compreendidos por quem nunca observou uma farda.
 
(Cléber Seagal)