Ola!

"A felicidade não passa de um sonho, e a dor é real... Há oitenta anos que o sinto. Quanto a isso, não posso fazer outra coisa senão me resignar, e dizer que as moscas nasceram para serem comidas pelas aranhas e os homens para serem devorados pelo pesar."(Schopenhauer)

terça-feira, 23 de abril de 2013

Uma Vez Chuva

       Eu não imaginava que a chuva chegasse, mas desejava. Como quem espera um ano e pudesse esperar mais, ela me surpreendeu de mansinho... Das vezes que eu olhava o céu, contava estrelas imensuravelmente, talvez por não tê-las em pessoal, também as desejava. Mas esta noite fora diferente das demais, que de um céu coberto nublava meu insistir, eu também agora esperava que as estrelas fossem gotas d’água... Porque em mim a mudança do tempo muda meu jeito de sentir e estar, enquanto já chegavam às trovoadas.

       Depois de alguns minutos eu me acercava do batente da escada, deixava-me tomar serenamente do tempo que me era até então compassivo, parecia que me preparava para o ensejo. Derreado o céu cumpria seu destino... Eu me molhava... Sentia as gotículas uma a uma e meus olhos brilhavam, pareciam preces celestes.

       Eu contava cada impressão d’água na pele como estrelas que cismavam num cerne introspecto da madrugada. Eu apenas ouvia o barulho da chuva, o desaguar que escorre pelo chão são minhas angústias, desesperanças a irem de mim carregadas por torrentes, para mim o passado desta tempestade já foi medo, agora admiro minhas alegrias.

       Passeei pela cidade, um andarilho que seguia a luz difusa dos postes, vez por outra me encostava às biqueiras artificiais, cada trecho que passava meu discernimento se contemplava das marginais solitárias, tergiversei meus rumos... Aqueduto de liberdade em que poucas vezes naveguei, desde criança não sonhava tanto.

        Terminei sentado na escada, observando a velocidade do temporal, hora eu marejava, hora a força n’água parecia conversar com o sereno. Senti que tudo me tocava numa nostalgia de acertos e erros, numa das primeiras vezes em minha vida não quis que a agua parasse, o frio me convinha num céu escuro de infindáveis pensamentos, confortável a tanta agua, por que naquele momento eu também era ela.


(Cléber Seagal)

domingo, 31 de março de 2013

A Alma no Espaço da Escrita




Alma convalescida, uma, duas horas, nada mais,
Na escrivaninha um tinteiro seco, 
Subjaz a palavra transcrita mormente,
E de cansaço as mãos caem tecidas de anos,
Agora de feridas meu pensar cai à lágrima,

Batem a porta, não me importa se lá fora o tempo muda,
E as escritas sempre em vais e vens intrépidos,
As pessoas não mudam apenas as palavras se mudam,

É, o meu medo viveu sob penas de angústias;
Coração mal-amado, o dos seres que vivem as aspas,
A meu ver um pingo d’água na torneira, paciência d’alma
De quem durante a noite as deixou molhadas na olhada,

Cálida, a chuva chegou nesta madrugada,
Olho meus sopros de inquieto, a vida segue um rio,
Que desço e apercebo onde estou?
Escuro está o céu, sobe-me ao arrepio, por que da dor?
Se dos fatos o destino nos desdobrou,

Agenda no tinteiro discorreu anseios,
Sonhei sobre horas, palavreei entre madrugadas,
Minha escrita morta, sob minha mente acordada,
Achei meu devaneio próprio, na mudança do tempo,

Tudo é sempre o mesmo; à noite, a agenda, o relógio,
As escritas é que diferem o sujeito, sempre de punhais a apontadas,
Na sorte penso muito, vejo todo o nada,
Passo entrevendo as cortinas nesses acertos,
No mundo a quem se atreve tem uma vida subjugada do alheio.

(Cléber Seagal)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Nostalgia de Cada Dia


Olho para o passado, uma pagina relida,
Mas sem novos aprendizados, sem as caricias mais atribuídas,
Deixo estar minha alma no tempo,
Sinto abraços e com eles o calor inebriado,

A porteira balança ao vento,
E não existem mais espaços entre meus dedos,
Foram cheiros da casa da vó,
E a menina que passa solta um sorriso,

Mãos acariciam minha cabeça, meus aconchegos maternos,
Um resquício de luz, enquanto meus olhos entre abertos sobrepõem sinestesias diversas.
Para onde olharei se a única coisa certa que me tive foi o passado,
Onde me prendia a segurança dos demais, meu castelo de areia armado,

Agora sinto também que a foto me deixou naquele mundo,
Naquele singelo pedaço de desejo,
Onde me foi tudo e agora doce ilusão testemunhada,
Saboreio meus ensejos, uma palavra tão peregrinada.

(Cléber Seagal)

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Sobre a Margem da Noite



Eu no meu canto suspiro o que se foi,
Às vezes me falta um ar, parece pesar Este sentimento,
Uma clausura é o horizonte visto daqui de dentro,
Sempre me aperceber de ser o outro, o mesmo.

Agora o astro luminoso se foi, e no campo vivem as lendas,
Ouço bem as lamurias da noite, e os cegos preceitos do obscurecimento...
A noite não me conhece, apenas acompanha minhas cogitações,
Ate que perceba na frigidez dos seus ares o nada profundo das maquinações...

Trazendo medo aqui, a noite não tem ninguém, 
Arquétipos humanos no meu réquiem, 
Há um lastro de decadência, sob a sobra dúbia deste frio, 
Me sinto numa presumível inocência de Abril,   
             
Os outeiros  solavancam ao vento, 
Um sabor recôndito destes tempos,
Entre o balançar sobrevivem as cidades, 
Minha ignorância pairou sobre as nuvens postergadas,
Sem lua hoje, sem escadas.                            

Meu amor me chama a cama,
Mas mais me chama entre olhá-la sobre o escuro,
Espero um momento nesta noite fatigada, em que todos deitam, 
E então eu me esperto nulo, tomado de absintos no nada.
                                    
Sem dores, sem horas, sem sono,  sou plaga de observador alheio,
Quem dera não ter casas, doidivanas crias não ser...
Não ter limites entre o ser humano e a espera da alvorada,
Pois que eu não me perca nesses trechos até uma lua nova liberada;
Postergo e digo que até então me faz falta, mesmo travestida de medo.

(Cléber Seagal)

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Foste Suave Agreste



Verdugo descampado, já foste rima,
E agora some-se na vastidão do seco que sublima
Parecendo afastar os senhores das enxadas,
 Aparecem eles em magotes, marejadas,

Provido chão benza a Deus o pão,
Condizente os senhores mais capinam no nada,
Ágil o instrumento acompanha,
A roçadeira campa dobrando a terra,
Uma restinga breve ao seco cerra,

Dos ais se foram às lembranças,
Dos estrados rachados nos dias,
Sol a pique a mostrados ditas,
Tomam-lhes estiagem tantas,
Bravia memoria, adeus suave agreste,

E a porteira preguiçosa, só marasmos...
Ouço a recordação da voz na vazante que desce;
O gado se faz das restingas, não lhe faltando pastos,
Cobre o ensejo, minhas vidas,
O sonho do sertanejo ilusionado?

(Cléber Seagal)