Ola!

"A felicidade não passa de um sonho, e a dor é real... Há oitenta anos que o sinto. Quanto a isso, não posso fazer outra coisa senão me resignar, e dizer que as moscas nasceram para serem comidas pelas aranhas e os homens para serem devorados pelo pesar."(Schopenhauer)

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Relicário



20 de Outubro de 2011,

Hoje, enquanto arrumava os livros e desempoeirava papéis mais antigos, encontrei dentro de uma antiga agenda do colegial uma pagina de jornal na época ano 2000, nem havia observado bem e a jogaria fora se não abrisse e me ligasse com o passado. Quando notei vi a foto de uma antiga amiga; ex modelo, posando em mise-en-scène, nuns gestos sensuais que desconhecia nela. Não maldei o ato, quanto mais o fato, relembrei que o tempo muda a identidade de cada um por si, reconheci que Mario de Andrade tinha razão quando falava “O poeta é o mundo trancado dentro de um homem”. Somos mesmo esse ser mutante... Profícuo. Naquele momento vi que a poesia estava nos gestos, como a amizade existe em não maldar no outro o que é uma égide de pureza.
Foi preciso que eu retrocedesse num flashback do tudo, e como seria diferente não fazê-lo a partir de boas lembranças, voltei aos tempos de escola. Era a inocência misturada às revoltas com o mundo, das paixões incontestáveis, dos zelos e absurdos que me foram base para ser o que sou. Notório mesmo foi me ver em abraçares que creio não mais terei, sim, porque um abraço não é igual a outro, como um beijo também não, até uma palavra na boca doutro toma proporções diversas. Forcei-me ao ver nos dizeres alheios o requinte magico de um momento, eu observava com atenção e cautela meus. 
Sentei um dia na escadaria do colégio que dava acesso a vista de todo o prédio com a piscina ao meio, eu disse e já havia dito comigo mesmo; nada é para sempre... Mais ao fundo encostada encontrei essa doce amiga da foto, ela lia uma carta, atenta nem notou que eu a olhava, e se naquela época Almeida Garret existisse para mim, talvez eu não fosse tão imediatista, talvez um pouco menos trivial eu entonaria Rosa sem espinhos, e inconscientemente eu findei por dar corda à forca que se formara na vida dela. Ela me disse graciosamente que namorava, e amava por ter recebido um elogio, foi chamada de “virtuosa”, eu não duvidaria, o dono da carta tinha razão, tanto que ele a aprisionou para sempre longe de qualquer amor, mas o desfecho só me veio dois anos depois, quando ainda saudoso a vi numa parada de ônibus em pleno centro de Fortaleza. Reparei bem e apurei se eu não me enganara, ela estava diferente por demais, mas era mesmo verdade que a vi; os olhos sem vida, um rosto cansado, uma aparência descuidada, bem... Ela não me reconheceu, tentei passagem pelas lembranças dela, por fim sobreveio-a quem fui, mas agora não adiantava mais, tempo perdido; triste a morte de uma ilusão, e aquele solilóquio do filme A Maquina do Tempo tomou-me: Todos temos máquinas do tempo, as que nos levam ao passado são as lembranças e as que nos fazem seguir em frente são os sonhos.”  
Ironia a parte, aquilo para ela era um pesadelo. Ele a maltratou tanto... vi nos seus pulsos também denegridas a imagem do belo, a todo o momento eu sentia estar falando com outra pessoa, mais uma vez vi longe quem eu conheci e sobrei do espaço que agora se encontrava seu coração; pôs-me literalmente a chutes, era como tentar enfrentar uma correnteza. Minha amizade perdida num vazio... Imaginei: Tem gente que morre em vida.
Provavelmente ela se sentiu morta para o mundo, certamente a amizade que ela tinha por mim faleceu há milênios, mas a imagem duma santa em vida existiu, essa marca que alguém já representou para o outro, do que já foi puro e fecundo, visionário, isso ninguém jamais tira. Incrível é saber que a eternidade prende-se na importância do lembrar, minha amizade com ela durou o tempo necessário para me ser feliz, cacoete de Lamartini: o homem é um deus caído que tem saudades do céu.
Agora eu segurava com cuidado o jornal, ele já não tinha tanta resistência, inútil reticência minha quando o dobrei, minhas lagrimas molharam o que sobrou, agora definitivamente “Memento”. Quando eu tinha 18 anos não me imaginava chorando por alguém; vícios do passado, e agora são lagrimas de papel, entrego-o de volta as minhas memorias da gaveta do relicário, ninguém precisa saber o que eu precisei viver, só você. Cada um sabe as dores que carrega; Pedaços de amizade. “Amor - coloquei meu coração na janela do meu quarto a fim de ressecar meus sentimentos e o mundo triste que nos circunda, e pensei: tomara que ela esteja bem”.
Um amigo me gritou da janela, respondi que já ia, despertei de meu labirinto. Lembrei que tudo que começa tem um fim, e sempre há um recomeço para todo final, bem, eu já tenho maduros anos, vivi meus amigos, e estes viveram-me, Até hoje noto minhas amizades, uns vêm e outros vão tomados pelas circunstâncias, pela fragilidade. ah! O tempo, rudeza ou bondade da vida? Eu a dou meu melhor, como ainda amo meus amigos. Há sempre novas auroras boreais; sempre sorrisos além dos ecos do silencio que me aprazem, além da caneta que emendei aqui, seu olhar nestas letras importa-me, mesmo a diferença que tu possa ser na vida de um alguém, quem sabe esquece parte de teus gritos, dos teus ritos... Sonha amiga, pois daqui te ouço bem, vês como pode ser única.
(Cléber Seagal).

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Do Reflexo


Esta imagem lírica que visto
Não é a imagem minha que dito
Nem o corpus que assemelha ao texto
Todo este encanto juvenil é pretexto,

Reflexo dum viver, sobra de plebeu
Esses medos que tanto insisto me comeu
Fugas de mim quando muito é sorte
O assombro pérfido ao dormir de açoite,

Breves discordares do limiar meu
Quem dera ser a coruja, que o noturno chama
Quem dera não ser lama, que ainda vais morrer
Não sou nada, nem isto, nem teu,

A terra toda clama minha sepultura
Os ventos trazem pesarem nunca minha cura
E o tempo juiz de meu penar na vista some
Sou mal olhado que na criança consome,

As pendengas que sondam o viver
O latim posto a prova e a discorrer
Carne, insígnia de pecado desmonte
És corpo todo cheio feito Aqueronte,

Minhas palavras secas e tortas de amargura
Já fui ensejo de olhares e candura
E não quero meu passado rabiscado
Nem quero este presente retocado,

Que todos os dias forçam-me a não ser
Tantos males no mundo a transparecer
Digo, este sorriso é mudo e inconsolo
Outros que se queixem não verão em mim dolo,

Quem dará solução ao mundo?
Nem papas, nem rabinos
Nem mestres adivinhos
Serei eu o só de defeitos, o imundo?

Não há sossego que me fuja do que sou
E no espelho vejo toda a fuga que me clamou
São duas rubricas, fé e angustia que anda
Porteiras por onde meu coração desanda,

Meus passos tão cansados de mim
Muitos sois, marca de carmesim
Muitas luas, choque de sentimento
Meu peito, meu consolo tormento,

Pois que te digo quão refletido
Esta imperfeição funesta do adquirido
Nasceu em mim, e por mim terminará
A vida fez-me mínimo e a terra me tomará.

(Cléber Seagal)

Outono ou Intermitência das Idades


Gosto quando chega o outono e as folhas caem, lembrou-me algo inevitável. Mesmo que durante anos foram-se às imagens de minha memoria; O melhor de tudo era ser o mais simples tolo que se poderia não notar, pois que os outros são incompletos por si, serei incompleto por mim.
Uma vez me imaginei sozinho, mas quando nos conhecemos noutro temos a certeza de tantos outros refletidos em si insistem, daí nos conhecemos por intermédio de terceiros, e que a formalidade do universo é a compleição do coletivo.
Então essas coisas sem sentido na alma humana fazem girar a cabeça de todas as existências, melancolia que mais parece sabia, do que mais um homem que queira ser insólito, e as sobras são palavras pós-ditas, mas minhas memorias são apenas do agora mostradas.
Todos têm cartas de segredos, dos mais fracos ou fortes, entre primeiros e últimos, a velhice nos oprime a reabri-las até que chegue o fim do corredor, fazemos parecer que não queremos reaver a realidade, mas coexistimos a ela.
Digo que não devemos deixar que as pessoas escapem as nossas mãos, embora o destino nos negue o eterno, e no entanto as deixamos passar sem tocar... E sentimos que não sabemos o que sonhamos.
É triste imaginar que o tempo é escasso, mas tudo acaba mesmo, e as pessoas mais orgulhosas nem notariam na diferença. Caminhar é o melhor que se pode fazer, se é que se pode fazer isso para frente.
Às vezes a poesia pairou sobre mim feito uma gaivota arredia da terra, complexada do mar na busca de alimento, e trespassa minha mente a sinceridade transvestida dos ventos das colinas que, só não me entristecem porque falo de alguém dos meus sonhos.
Das vezes que passeamos em sonho, ora somos todos sonhos de alguém, no entanto as dores que sentimos em vida, os gritos não ouvidos são laços do não compreendido... Acredite que a vida não é só isso, ou creia-se falando sozinho sem sentimentos.
Creio que este ano minhas pernas estão mais cansadas, meu pensar não é mais o mesmo, e a beleza que já não foi tanta é agora parceira dos demais males da idade, e mais do que os outros viventes já sei do meu amanhã.
Eu buscaria meu fim se assim pudesse, mas minha vida valeu a pena de todos os ares, sinto-a verdadeiramente constante, e num osculo marginal me serve de simbiose ao amanhã. Natural, porque na natureza observa-se que buscamos o fatal de maneira irrevogável, feito o macho da viúva-negra, assim também se distingue o homem para as abstrações do mundo, onde o prazer cumpre sua meta, e a morte cobra seus pesares.
Creio também que as pessoas não são coisas, elas algum dia fogem de nós e do mundo, porque não nascemos aprendendo a entender percas, pois na morte a única coisa que nos une é a posição do corpo no caixão.
Outrora eu senti o vento fresco da campina, outrora eu nunca quis me imaginar noutros planos, e agora nem a febre me deixa, e meus sonhos já não são mais tantos. Que o diga minhas pernas, na pele e em vista conduzo-me ao ultimo degrau das existências; o beco estreita-se.

(Cléber Seagal)



terça-feira, 25 de setembro de 2012

A Aurora Sob os Pés dos Homens



Dormi e acordei num sonho, algumas ralas vezes me distanciei da realidade. Porque na aurora de minha pessoalidade minha duvida abstrava. De modo que já tirei minhas conclusões sobre as coisas deste mundo.

Uma vez amei o mundo, mas o mundo se abandonou... Todas as perguntas ficaram no cotidiano, e as respostas perdidas na imensidão do tempo... A terra já foi virgem lívida, mas tomaram seus intentos, e a naturalidade do espaço está finita nas agruras de sermos.
 
Vivi parte de minha vida sozinho, doutra parte adivinho o que serei, e mesmo assim estando, sonho um canto de abalo vivo, que tão pouco resta a quem quer tanto sobreviver... 

É necessário fazer-se de louco, despir-se também das futilidades do mundo, pensar absurdos se não ter, quando eu pensei; fui, talvez fazer por merecer, Imaginar-se banhando ao chover... é necessário ser forte para não morrer aos poucos por dentro...

Algo me diz; não tente ser o que não é, embora o mundo lhe abrigue mascaras de modo a esconder suas lagrimas, não se distraia, a rudeza dos homens me é também algumas vezes de valores estranhos e obsoletos. 

Não me sendo difícil chorar, o fiz em silencio, e no meu seio a vista baixou como quem procura o chão, a cabeça ao peso dos problemas, carga pesada e fino dilema, não encontrei apoio. Sozinho e infrutífero medo meu, não me escapa, drena todo o ciclo de quem tenta, difícil ser alguém, difícil ser quem sou. 

Tenho alma triste, e como se bastasse a sorrir em meio aos problemas emulo-me, sou mesmo esse escoar rígido e alheio de mim, mas minha tristeza lembra minha humanidade plena, para lembrar que também há dores, prantos e lembranças... Suas, minhas e de outrem, não se pode imaginar arco-íris, nem fadas e super-homens na maturidade.

Sinto o calor que chega, convindo uma marcha difusa e consonante, apercebo que o calor se retém em mim, mas não domina meu frio mais intimo, olho para as nuvens ralas e o que imaginar de minha procela pessoal, às vezes me provoca toda essa calma.

        No meu quintal há sempre zelo, um canto de preceitos, e a tigela na mesa cabem enxertos de palavras e madrigais, noites perdidas, insones. Não é possível ao peso da porta um engano do peso do pranto. Há duvidas, e meu medo é sombra, e arremeto em horas a custa de perdas, de tempos em tempos, são palavras de pessoas mortas.

         A necessidade de ir-se daqui é iminente, não bastando forçar sentimento, nem razão. Quase uma via sacra que torna-se de pedras e cipoadas, agora também o vinagre posto em vida, é nisso sempre uma tentativa a auto aprovação, trocam-se apenas as armas do algoz; mata-se mais por rejeição do que por qualquer meio violento. 

      Eis que nem sempre a dor é um flagelo infindo, mas certo, posto que a saudade também seja angustia dos que se foram ou virão; perdas e ganhos da alma, os homens são feitos de suas medalhas, triste constatação.

Algumas coisas não bastam na arte de sermos a imagem, buscar nela uma salvação, de viveres seguem-se de espaço, mas o pincel teceu destarte o céu de verão com imensidão azul celeste, abobada de anjos sacros de pinturas de Michelangelo, tocar de Deus.   

Tomam também suas folhagens varias, constante de airado, suas roupagens de florada etéreas a se renovarem a cada estação, pinceis não satisfazem a tinta sem tenazes esboços de seres, nem a terra que colhe vidas já causticadas foge a comparação das margens;

        Dormi e acordei num sonho, assombro de duvidas, crepuscular de mansidão; parece o estender-se ao fim da tarde. Parecem constatar obras de soturna ineptidão, e ao que chegar vespertino, espreita minha compleição, acredito sermos todos nós num arredio da própria alma, da exata não aceitação.
                                                                                                    (Cléber Seagal)